Era uma vez um quadrado que era muito convencido. Vangloriava-se de que sem ele não haveria cubos, pirâmides quadrangulares e muito mais. Mas um dia, um triângulo cansado de tanta presunção foi falar com ele:
− Por que estás sempre com esse ar superior? − perguntou o triângulo.
− Porque sou indispensável. − explicou o quadrado. − Não sei se já reparaste mas, sem mim, no Egipto não haveria pirâmides! És cego?
− Tu é que pareces cego de vaidade! Não te apercebeste que, nós, os triângulos, somos as faces laterais das pirâmides? − questionou o triângulo.
− Sim, mas eu também estou na pirâmide, sou a base. Sem mim não haveria…
− Cala-te, que eu estou farto de te ouvir e sem ti haveria muita coisa! Tu tens que admitir que nas pirâmides estás no chão, na base quero eu dizer, e se tirarem uma fotografia às pirâmides, tu não apareces, pois estás por baixo!
Somos nós que percorremos o mundo, nas fotografias dos turistas.
− Mas toda a gente sabe que eu lá estou, e aliás sem mim…
− Pára! Eu já percebi que não mudas de ideias, mas olha, também há pirâmides triangulares! E esta, hem?
− Ora, ora se cortarem uma parte de mim, podemos ter uma pirâmide, meu caro, e não só, também é possível obter outros sólidos!
− És mesmo convencido! Sofres de “superioridade”?
− Bem, desculpa mas tenho de ir embora − gozou o quadrado. – Tenho uma sessão de autógrafos, sabes como é… Ai não, tu não sabes, aliás como poderias saber? É que eu tenho fãs, muitos fãs. Bye-bye!
Passados alguns dias, o quadrado ficou doente, uma forte constipação fê-lo ficar com os seus quatro ângulos rectos infeccionados, dois pareciam obtusos e os outros dois agudos. Coitado, estava feito num trapézio! Os serviços do quadrado foram então solicitados, pelos alunos de uma escola, numa tarefa de investigação matemática e não tinham quem o pudesse substituir. Foi então organizada uma reunião urgente entre polígonos:
− Como será que vamos substituir o quadrado? − perguntou o chefe que era um experiente icoságono.
− Já sei − exclamou um dos triângulos. − Nós, os triângulos, se nos juntarmos dois a dois formamos um quadrado!
Grita de um canto um preguiçoso triângulo obtusângulo e escaleno, tentando fugir ao trabalho:
− Não podem ser quaisquer triângulos!
Um hexágono irregular, habituado às irritações dos triângulos obtusângulos, compreendendo o que ele quis dizer, explicou melhor a sua ideia:
− Não se esqueçam que só aos triângulos rectângulos é que se pode atribuir
a tarefa de substituir o quadrado.
Timidamente, um losango questionou:
− E pode ser qualquer triângulo rectângulo?
Neste momento todos os triângulos começaram a tentar arranjar par, a encaixarem-se noutros triângulos, mas nem sempre resultava muito bem…
Depois de um grande corrupio, verificou-se que apenas os triângulos rectângulos e isósceles é que podiam transformar-se num quadrado.
E assim foi, foram então escolhidos dois triângulos deste tipo, eleitos entre todos os polígonos presentes na reunião, para substituir o quadrado. E pode dizer-se que a tarefa foi um êxito! Os triângulos rectângulos e isósceles, substituíram o quadrado na perfeição! Até houve quem não se apercebesse da inevitável troca.
Sabendo do que se passou, no dia seguinte, o quadrado foi falar com os triângulos substitutos, já com uma atitude bem diferente.
− Eeeuu…eeu…eu…eu soube que fostes vós, que me substituístes…
− Sim fomos nós, porquê? Vais criticar-nos, é? Achas que não estivemos à altura?
− N…não, antes pelo contrário, eu queria agradecer-vos. Eu fui muito injusto em relação aos triângulos e aos outros polígonos. Durante o período em que estive doente, pude reflectir um pouco, e cheguei à conclusão de que estava cego de presunção até à pontinha dos meus quatro vértices. Acho que aprendi uma lição, nenhum de nós é insubstituível no mundo dos polígonos, qualquer um de nós pode ser obtido por decomposição de outros polígonos, ou construído com a sua união. Agradeço-vos por terem sido solidários comigo, mesmo depois das minhas feias atitudes foram capazes de me substituir, não tentando colher quaisquer dividendos com isso. Isso sim é que é atitudes de polígonos amigos, amigos verdadeiros.
O quadrado foi sincero no seu pedido de desculpas e a verdade é que agora quadrados e triângulos parecem mais unidos. Até há quem os considere os melhores amigos. Nunca mais ninguém teve queixas do quadrado.
Esta história aconteceu num tempo que até custa a recordar. Dói. Dói muito. Mas há dores e ardores que fazem bem, que curam. Por exemplo, um pacho de água oxigenada em cima de um arranhão (ou mesmo uma gota de álcool) desinfecta. Claro que dói, mas sopra-se, alivia e passa. É o que vai acontecer com esta história, prometo. Nesse tempo, os filhos de servos eram servos também. Os pais trabalhavam, nos campos ou nos castelos dos senhores fidalgos, e os filhos, mal podiam carregar com um balde de água ou manejar uma enxada, eram também obrigados a trabalhar. Escolas? Não havia. Leis que protegessem a infância? Estava-se ainda muito longe de pensar nisso. Vamos chamar José ao rapaz da nossa história. É órfão e servo. Vai ser castigado. Injustamente. Uns figos que estavam a secar na eira desapareceram, roubados por algum guloso, e as culpas foram cair no José. Porquê? Porque sim. Era o mais novo dos trabalhadores. Só podia ser ele. De nada lhe serviu gritar a sua inocência. Quem acredita num garoto, ainda por cima servo, um desclassificado, um ranhoso? A mando do senhor, o capataz ferrou-lhe três bastonadas nos ossos, à vista de todos, para que servisse de exemplo. José chorou toda a noite, de dor, de humilhação, de revolta. Voltou a chorar, dias depois, quando soube que o autor do roubo dos figos tinha sido o filho mais novo do senhor. Até houve quem se risse. Entre eles, o filho mais novo do senhor. As bastonadas, essas, não podiam ser apagadas das costas do servo José como quem apaga, numa folha, um risco errado. José jurou que havia de vingar-se, demorasse o que demorasse a vingança. Eles, capataz, senhor e filho, iam pagar as três bastonadas e a vergonha. O mundo deu muita volta. José cresceu. Puseram-lhe uma lança na mão e disseram que ele era soldado. Como soldado andou por batalhas confusas, dando e levando, sem saber ao certo à conta de quem combatia. Os mandantes da guerra ora se aliavam ora se zangavam e os respectivos exércitos eram ajustados ou retalhados, ao sabor dos caprichos dos senhores. Um dia, José, no meio de uma refrega, viu-se diante do filho do senhor, tão homem feito como ele. Vinha a cavalo, pronto a enfrentar outro cavaleiro da sua estirpe. José, com o cabo da lança, deu-lhe uma bastonada que quase o derribou do cavalo. Depois, soldado apeado, continuou a correria atrás do pendão, indiferente ao destino do adversário. Só lhe faltavam duas bastonadas. Aconteceu que no fim dessa batalha, o cirurgião do exército em que o José estava alistado precisou de ajudantes. José ofereceu-se e tão bem se houve a cuidar dos feridos que o mestre cirurgião o pôs ao seu serviço. Quando, finalmente, voltou a paz àquelas terras, o cirurgião não quis desfazer-se do aprendiz. José aprendeu com o mestre tudo o que ele tinha para ensinar. Foi assim que o antigo servo órfão acabou por tomar, por sua conta e risco, o título de cirurgião. Naquele tempo, como já disse, não havia escolas. Davam-no como um grande doutor. Vieram, uma vez, ter com ele, a pedido do castelão, aflito com um osso de galinhola atravessado nos gorgomilos. José foi visitá-lo e deparou com o senhor que ordenara as bastonadas. O homem estava quase sufocado. - Tragam-me um pau - pediu José, diante do doente. - Para se livrar dessa aflição, tem de levar uma bastonada. O senhor ofereceu as costas de bom grado e zás, apanhou uma paulada e tanto. Parece que cuspiu o osso, mas José já não quis saber. Também não tinha levado nada pela consulta. Só faltava uma bastonada. Ele a sair do castelo e um moleiro a vir ter com ele aos gritos. - O meu pai estava a ajudar-me a desmanchar o engenho do moinho e cai-lhe a mó em cima de uma perna. Que desgraça! José acudiu e foi dar com o antigo capataz a torcer-se de dores, com uma perna esmagada pela mó do moinho. - Traga-me um pau bem grande - pediu o cirurgião José, que antes tinha sido José, menino órfão, servo castigado inocente. O filho do capataz trouxe um pau. - Maior - exigiu o cirurgião José. O filho do capataz foi buscar. Quando veio com uma viga de todo o tamanho, José disse-lhe: - Agora ajude-me que eu sozinho não consigo. Entalou o madeiro entre o chão e a mó, os dois em peso fizeram de alavanca e assim conseguiram arredar a perna do capataz do aperto em que estava. - Salva-se? - perguntou o filho do capataz. O cirurgião José olhou para a perna ensanguentada e para o desfalecido capataz e respondeu: - Salva-se. E tratou-o. E salvou-o. Esta bastonada foi a que lhe deu mais gosto pagar.
No reino das árvores, as pessoas mandam muito. Dizem até algumas árvores que as pessoas mandam demais. Pois se, para que as árvores cresçam, há que escorá-las, para que elas se desenvolvam, há que podá-las, para que elas ganhem força, há que regá-las, o que é que resta às árvores, o que é que lhes cabe fazerem sozinhas? - Fazemos os frutos - dizem as árvores mais experientes. - As pessoas ainda não conseguem fazer peras, maçãs, laranjas, romãs, cerejas, ginjas, ameixas, sem nós. - Mas, depois, as pessoas tiram-nos o que fizemos - dizia um limoeiro novo. - E para que é que tu precisas dos limões, meu tolo? - replicava uma macieira com muitos anos de vida. - Para enfeitar - respondia o limoeiro. Aconteceu que, naquele ano, por altura da apanha, o reino das árvores não foi visitado por ninguém. O dono do pomar estaria doente ou teria ido para fora, talvez desinteressado das árvores a que, noutros anos, dera toda a atenção. Os frutos por colher pendiam dos ramos. Uns secaram. Outros caíram no chão, apodrecidos. Uma lástima. Ainda se aquele pomar ficasse perto da estrada que leva à escola, talvez houvesse quem se tentasse e fizesse a colheita por sua conta? Mas, como ficava num sítio isolado e pouco acessível, ninguém deu pelo pomar ao abandono. Vieram os pássaros. Vieram as lagartas. Vieram os insectos. Foi uma razia. Depois, o terreno do pomar não teve quem o lavrasse. Cresceram as silvas e as ervas daninhas. Muitas árvores ganharam moléstia. Deram, quando deram, uns frutos murchos e raquíticos. Sem préstimo. Quando, tempos depois, o pomar abandonado foi visitado por pessoas, metia dó. O pequeno limoeiro, que, entretanto, crescera, olhava em volta e só via árvores secas. - Uma ruína - diziam as pessoas. - Salvou-se o limoeiro, porque é árvore resistente, mas mesmo esse precisa de tratamento. Acompanhado e tratado arribou. É, agora, um belo e perfumado limoeiro, que não se importa nada, mesmo nada, de dar os seus limões às pessoas que lhos pedem.
Os três irmãos de Medranhos, Rui, Guanes e Rostabal, eram então, em todo o Reino das Astúrias, os fidalgos mais famintos e os mais remendados.
Nos Paços de Medranhos, a que o vento da serra levara vidraça e telha, passavam eles as tardes desse Inverno, engelhados nos seus pelotes de camelão, batendo as solas rotas sobre as lajes da cozinha, diante da vasta lareira negra, onde desde muito não estalava lume, nem fervia a panela de ferro. Ao escurecer devoravam uma côdea de pão negro, esfregada com alho.
Depois, sem candeia, através do pátio, fendendo a neve, iam dormir á estrebaria, para aproveitar o calor das três éguas lazarentas que, esfaimadas como eles, roíam as traves da manjedoura. E a miséria tornara estes senhores mais bravios que lobos.
Ora, na Primavera, por uma silenciosa manhã de domingo, andando todos três na mata de Roquelanes a espiar pegadas de caça e a apanhar tortulhos entre os robles, enquanto as três éguas pastavam a relva nova de Abril – os irmãos de Medranhos encontraram, por trás de uma moita de espinheiros, numa cova de rocha, um velho cofre de ferio. Como se o resguardasse uma torre segura, conservava as suas três chaves nas suas três fechaduras. Sobre a tampa, mal decifrável através da ferrugem, corria um dístico em letras árabes. E dentro, até às bordas, estava cheio de dobrões de ouro!
No terror e esplendor da emoção, os três senhores ficaram mais lívidos do que círios. Depois, mergulhando furiosamente as mãos no ouro, estalaram a rir, num riso de tão larga rajada que as folhas tenras dos olmos, em roda, tremiam... E de novo recuaram, bruscamente se encararam, com os olhos a flamejar, numa desconfiança tão desabrida que Guanes e Rostabal apalpavam nos cintos as cabos das grandes facas. Então Rui, que era gordo e ruivo, e o mais avisado, ergueu os braços, como um árbitro, e começou por decidir que o tesouro, ou viesse de Deus ou do Demônio, pertencia aos três, e entre eles se repartiria, rigidamente, pesando-se o ouro em balanças. Mas como poderiam carregar para Medranhos, para os cimos da serra, aquele cofre tão cheio? Nem convinha que saíssem da mata com o seu bem, antes de cerrar a escuridão. Por isso ele entendia que o mano Guanes, como mais leve, devia trotar para a vila vizinha de Retortilho, levando já ouro na bolsilha, a comprar três alforjes de couro, três maquias de cevada, três empadões de carne e três botelhas de vinho. Vinho e carne eram para eles, que não comiam desde a véspera: a cevada era para as éguas. E assim refeitos, senhores e cavalgaduras, ensacariam o ouro nos alforjes e subiriam para Medranhos, sob a segurança da noite sem lua.
– Bem tramado! – gritou Rostabal, homem mais alto que um pinheiro, de longa guedelha, e com uma barba que lhe caía desde os olhos raiados de sangue até á fivela do cinturão.
Mas Guanes não se arredava do cofre, enrugado, desconfiado, puxando entre os dedos a pele negra do seu pescoço de grou. Por fim, brutalmente:
– Manos! O cofre tem três chaves... Eu quero fechar a minha fechadura e levar a minha chave!
– Também eu quero a minha, mil raios! – rugiu logo Rostabal.
Rui sorriu. Decerto, decerto! A cada dono do ouro cabia uma das chaves que o guardavam. E cada um em silêncio, agachado ante o cofre, cerrou a sua fechadura com força. Imediatamente Guanes, desanuviado, saltou na égua, meteu pela vereda de olmos, a caminho de Retortilho, atirando aos ramos a sua cantiga costumada e dolente:
Olé! Olé!
Sale la cruz de la iglesia,
Vestida de negro luto...
II
Na clareira, em frente à moita que encobria o tesouro (e que os três tinham desbastado a cutiladas) um fio de água. brotando entre rochas: caía sobre uma vasta laje escavada, onde fazia como um tanque, claro e quieto, antes de se escoar para as relvas altas. E ao lado, na sombra de uma faia, jazia um velho pilar de granito, tombado e musgoso. Ali vieram sentar-se Rui e Rostabal, com os seus tremendos espadões entre os joelhos. As duas éguas retouçavam a boa erva pintalgada de papoulas e botões-de-ouro. Pela ramaria andava um melro a assobiar. Um cheiro errante de violetas adoçava o ar luminoso. E Rostabal, olhando o Sol, bocejava com fome.
Então Rui, que tirara o sombreiro e lhe cofiava as velhas plumas roxas, começou a considerar, na sua fala avisada e mansa, que Guanes, nessa manhã, não quisera descer com eles à mata de Roquelanes. E assim era a sorte ruim! Pois que se Guanes tivesse quedado em Medranhos, só eles dois teriam descoberto o cofre, e só entre eles dois se dividiria o ouro! Grande pena! Tanto mais que a parte de Guanes seria em breve dissipada, com rufiões, aos dados, pelas tavernas.
– Ah! Rostabal, Rostabal! Se Guanes, passando aqui sozinho, tivesse achado este ouro, não dividia conosco, Rostabal!
O outro rosnou surdamente e com furor, dando um puxão às barbas negras:
– Não, mil raios! Guanes é sôfrego... Quando o ano passado. se te lembras, ganhou os cem ducados ao espadeiro de Fresno, nem me quis emprestar três para eu comprar um gibão novo!
– Vês tu? – gritou Rui, resplandecendo.
Ambos se tinham erguido do pilar de granito, como levados pela mesma idéia, que os deslumbrava. E, através das suas largas passadas, as ervas altas silvavam.
– E para quê – prosseguia Rui. – Para que lhe serve todo o ouro que nos leva? Tu não o ouves, de noite, como tosse? Ao redor da palha em que dorme, todo o chão está negro do sangue que escarra! Não dura até ás outras neves, Rostabal! Mas até lá terá dissipado os bons dobrões que deviam ser nossos, para levantarmos a nossa casa, e para tu teres ginetes, e armas, e trajes nobres, e o teu terço de solarengos, como compete a quem é, como tu, o mais velho dos de Medranhos...
– Pois que morra, e morra hoje! – bradou Rostabal.
– Queres?
Vivamente, Rui agarrara o braço do irmão e apontava para a vereda de olmos, por onde Guanes partira cantando:
– Logo adiante, ao fim do trilho, há um sítio bom, nos silvados. E hás-de ser tu, Rostabal, que és o mais forte e o mais destro. Um golpe de ponta pelas costas. E é justiça de Deus que sejas tu, que muitas vezes, nas tavernas, sem pudor, Guanes te tratava de «cerdo» e de «torpe», por não saberes a letra nem os números.
– Malvado!
– Vem!
Foram. Ambos se emboscaram por trás de um silvado que dominava o atalho, estreito e pedregoso como um leito de torrente. Rostabal, assolapado na vala, tinha já a espada nua. Um vento leve arrepiou na encosta as folhas dos álamos – e sentiram o repique leve dos sinos de Retortilho. Rui, coçando a barba, calculava as horas pelo Sol, que já se inclinava para as serras. Um bando de corvos passou sobre eles, grasnando E Rostabal, que lhes seguira o roo, recomeçou a bocejar, com tome, pensando nos empadões e no vinho que o outro trazia nos alforjes.
Enfim! Alerta! Era, na vereda, a cantiga dolente e rouca, atirada aos ramos:
Olé! Olé!
Sale la cruz de la iglesia,
Vestida de negro luto...
Rui murmurou: – Na ilharga! Mal que passe! – O chouto da égua bateu o cascalho. uma pluma num sombrero vermelhejou por sobre a ponta das silvas.
Rostabal rompeu de entre a sarça por uma brecha, atirou o braço, a longa espada – e toda a lâmina se embebeu molemente na ilharga de Guanes, quando ao rumor, bruscamente ele se virara na sela. Com um surdo arranco, tombou de lado, sobre as pedras. Já Rui se arremessava aos freios da égua – Rostabal. caindo sobre Guanes, que arquejava, de novo lhe mergulhou a espada, agarrada pela folha como um punhal, no peito e na garganta.
– A chave! – gritou Rui.
E arrancada a chave do cofre ao seio do morto, ambos largaram pela vereda – Rostabal adiante, fugindo, com a pluma do sombrero quebrada e torta, a espada ainda nua entalada sob o braço, todo encolhido, arrepiado com o sabor do sangue que lhe espirrara para a boca: Rui, atrás, puxava desesperadamente os freios da égua, que, de patas fincadas no chão pedregoso, arreganhando a longa dentuça amarela. não queria deixar o seu amo assim estirado, abandonado, ao comprido das sebes.
Teve de lhe espicaçar as ancas lazarentas com a ponta da espada – e foi correndo sobre ela, de lâmina alta, como se perseguisse um mouro, que desembocou na clareira onde o sol já não dourava as folhas. Rostabal arremessara para a relva o sombrero e a espada; e debruçado sobre a laje escavada em tanque, de mangas arregaçadas, lavava, ruidosamente, a face e as barbas.
A égua, quieta, recomeçou a pastar, carregada com os alforjes novos que Guanes comprara em Retortilho. Do mais largo, abarrotado, surdiam dois gargalos de garrafas. Então Rui tirou, lentamente, do cinto, a sua larga navalha. Sem um rumor na relva espessa, deslizou até Rostabal, que resfolegava, com as longas barbas pingando. E serenamente, como se pregasse urna estaca num canteiro, enterrou a folha toda na largo dorso dobrado, certeira sobre o coração.
Rostabal caiu sobre o tanque, sem um gemido, com a face na água, os longos cabelos flutuando na água. A sua velha escarcela de couro ficara entalada sob a coxa. Para tirar de dentro a terceira chave do cofre, Rui solevou o corpo – e um sangue mais grosso forrou, escorreu pela borda do tanque, fumegando.
III
Agora eram dele. só dele, as três chaves do cofre! E Rui, alargando os braços, respirou deliciosamente. Mal a noite descesse, com o ouro metido nos alforjes, guiando a fila das éguas pelos trilhos da serra, subiria a Medranhos e enterraria na adega o seu tesouro! E quando ali na fonte, e além rente aos silvados, só restassem, sob as neves de Dezembro. alguns ossos sem nome. ele seria u magnífico senhor de Medranhos, e na capela nova do solar renascido mandaria dizer missas ricas pelos seus dois irmãos mortos... Mortos como? Como devem morrer os de Medranhos – a pelejar contra o Turco!
Abriu as três fechaduras, apanhou um punhado de dobrões, que fez retinir sobre as pedras. Que puro ouro, de fino quilate! E era o seu ouro! Depois foi examinar a capacidade dos alforjes – e encontrando as duas garrafas de vinho, e um gordo capão assado, sentiu uma imensa fome. Desde a véspera só comera uma lasca de peixe seco. E há quanto tempo não provava capão!
Com que delícia se sentou na relva, com as pernas abertas, e entre elas a ave loura, que recendia, e o vinho cor de âmbar! Ah! Guanes fora bom mordomo – nem esquecera azeitonas. Mas porque trouxera ele, para três convivas, só duas garrafas? Rasgou uma asa do capão: devorava a grandes dentadas. A tarde descia, pensativa e doce, com nuvenzinhas cor-de-rosa.
Para além, na vereda, um bando de corvos grasnava. As éguas fartas dormitavam, com o focinho pendido. E a fonte cantava, lavando o morto.
Rui ergueu à luz a garrafa de vinho. Com aquela cor velha e quente, não teria custado menos de três maravedis. E pondo o gargalo à boca, bebeu em sorvos lentos, que lhe faziam ondular o pescoço peludo. Oh vinho bendito, que tão prontamente aquecia o sangue! Atirou a garrafa vazia – destapou outra. Mas, como era avisado, não bebeu, porque a jornada para a serra, com o tesouro, requeria firmeza e acerto. Estendido sobre o cotovelo, descansando, pensava em Medranhos coberto de telha nova, nas altas chamas da lareira por noites de neve, e o seu leito com brocados, onde teria sempre mulheres.
De repente, tomado de urna ansiedade, teve pressa de carregar os alforjes. Já entre os troncos a sombra se adensava. Puxou uma das éguas para junto do cofre, ergueu a tampa. tomou um punhado de ouro... Mas oscilou, largando os dobrões, que retilintaram no chão, e levou as duas mãos aflitas ao peito. Que é, D. Rui? Raios de Deus! Era um lume, um lume vivo, que se lhe acendera dentro, lhe subia até às goelas. Já rasgara o gibão, atirava os passos incertos, e, a arquejar, com a língua pendente. limpava as grossas bagas de um suor horrendo que o regelava como neve. Oh Virgem Mãe! Outra vez o lume, mais forte, que alastrava, o roía! Gritou:
– Socorro! Alguém! Guanes! Rostabal!
Os seus braços torcidos batiam o ar desesperadamente. E a chama dentro galgava – sentia os ossos a estalarem como as traves de uma casa em fogo.
Cambaleou até à fonte para apagar aquela labareda, tropeçou sobre Rostabal; e foi com o joelho fincado no morto, arranhando a rocha, que ele, entre uivos, procurava o fio de água. que recebia sobre os olhos, pelos cabelos. Mas a água mais o queimava, como se fosse um metal derretido. Recuou. caiu para cima da relva. que arrancava aos punhados, e que mordia, mordendo os dedos, para lhe sugar a frescura. Ainda se ergueu. com uma baba densa a escorrer-lhe nas barbas: e de repente; esbugalhando pavorosamente os olhos, berrou, como se compreendesse enfim a traição, todo o horror:
– É veneno!
Oh! D. Rui, o avisado, era veneno! Porque Guanes, apenas chegara a Retortilho, mesmo antes de comprar os alforjes, correra cantando a uma viela, por detrás da catedral, a comprar ao velho droguista judeu o veneno que, misturado ao vinho, o tornaria a ele, a ele somente, dono de todo o tesouro.
Anoiteceu. Dois corvos, de entre o bando que grasnava além nos silvados, já tinham pousado sobre o corpo de Guanes. A fonte, cantando. lavava o outro morto. Meio enterrado na erva negra, toda a face de Rui se tornara negra. Uma estrelinha tremeluzia no céu.
Era uma vez uma menina do Norte, de um desses países onde há neve, durante grande parte do ano, e enormes florestas habitadas por lobos. A menina, embora boa, era um tanto irreflectida e desobediente. Uma tarde, saiu de casa sem dizer nada aos pais, entrou na floresta e lá foi correndo, pulando e fazendo lindas bolas de neve que atirava ao ar, rindo muito, porque era uma rapariguinha muito alegre. Quando a noite, de súbito, caiu com um negro manto, sem lua nem estrelas, a menina, muito assustada, chorosa e cheia de frio, sentou-se encostada ao tronco de uma árvore. Enquanto choramingava baixinho, porque a própria voz lhe metia medo, foi-se habituando à escuridão e já era capaz de ver as árvores em redor e o chão onde, aqui e além, havia brancos estilhaços da última neve que caíra. O silêncio era tão completo que ela ouviu, a certa altura, uns passinhos de lã leves e prudentes. Aproximavam-se, paravam hesitantes, vinham de novo. Apavorada, quis gritar, mas nem a voz encontrou por mais que a procurasse. Era decerto um lobo! Fugir não lhe serviria de nada e, mesmo que quisesse fugir, seria incapaz de se mover. O terror impedia-a de mexer um só dedo. Afinal tratava-se de um cão, embora grande e esquisito, diferente de todos os cães que ela conhecia, mas sem nada de perigoso. E o coração da menina voltou a bater, compassado, como todos os corações. O animal aproximou-se, farejou-a com ar interessado e olhou-a fixamente. A menina fez-lhe uma festa na cabeça e, contente com a companhia, daí a pouco estava a dormir. Logo que a aurora se mostrou lá no alto, o animal foi-se embora. Mexeu-se, porém, com grande cuidado para não acordar a menina. Esta dormia encolhida quando os homens chegaram. Eram homens que tinham levado a noite toda à procura dela e já a consideravam perdida. O pai aproximou-se e a menina abriu os olhos, rindo alegremente, logo ali contou a sua aventura. Só tinha pena de o seu novo amigo se ter ido embora. – Era muito grande – explicou – nunca vi um cão daquele tamanho. Ao mesmo tempo, na sua toca da floresta, lá muito para diante, a loba explicava aos lobinhos, inquietos com a sua demora, numa linguagem que as pessoas não percebem, que chegara tarde, por causa de um animalzinho pequeno que se havia perdido dos pais e estava a chorar e a morrer de frio encostado a uma árvore. Devia ser um animalzinho importante, porque os homens já andavam à procura dele. E aproveitou, como boa mãe, para lembrar uma vez mais aos lobinhos, que não se perdessem na floresta, porque às vezes apareciam lá os terríveis homens-caçadores, inimigos dos lobos. Naquela noite, porém, a loba e a menina não se tinham reconhecido e não houvera, por isso, nem medo nem ódio.
Este é um espaço criado para todos aqueles que gostam de ler, para os que não gostam e querem aprender a gostar ou até para aqueles que não gostam e não fazem intenções de gostar.
Aqui podem ser partilhadas opiniões, ideias, sugestões de leitura, biografias de autores, excertos de obras, textos próprios ou de outrem...Enfim, tudo aquilo que a imaginação de cada um ditar.
Presentemente, estamos a assistir a um desinvestimento por parte da maioria da população relativamente à leitura, que se vem arrastando há “longos” anos devido, essencialmente, ao aparecimento de novas tecnologias e outros focos de interesse. Não queremos com isto dizer que a sua fomentação deve ser relegada para segundo plano em detrimento da leitura, pensamos é que podem coexistir sem prejuízo para nenhuma. De acordo com o Programa de Língua Portuguesa, a Escola deverá proporcionar “ (…) ocasiões e ambientes favoráveis à leitura silenciosa e individual (…)” e promover “ (…) a leitura de obras variadas em que os alunos encontrem respostas para as suas inquietações e expectativas.”. Deste modo, com a criação do “Clube de Leitura”, pretendemos proporcionar aos alunos um espaço no qual aprofundem a sua relação afectiva com a leitura, mantendo contacto com os livros, enquanto objectos, acedendo a uma grande variedade de obras, e vivendo situações que propiciem o prazer imediato da leitura e a afirmação da sua subjectividade. Tudo isto contribui naturalmente para o alargamento da competência da leitura.
2. Objectivos
Pretende-se manter um espaço que permita ao aluno:
- criar hábitos de leitura; - desenvolver o gosto pela leitura; - desenvolver a competência de leitura; - ser um leitor fluente e crítico; - ler com autonomia, velocidade e perseverança; - contactar com literatura nacional e universal; - expor e justificar opiniões; - desenvolver o discurso argumentativo; - comunicar oralmente, tendo em conta a oportunidade e a situação; - exprimir-se com progressiva autonomia e clareza;
3. Descrição das actividades a desenvolver:
Aos alunos deverão ser proporcionadas actividades motivadoras e diversificadas que poderão ser desenvolvidas individualmente e/ou em grupo. Apresentam-se, em seguida, exemplos de algumas actividades a implementar durante o presente ano lectivo: - Contribuir para a construção e actualização deste blogue; - ouvir ler e ler narrativas que correspondam aos seus interesses; - fazer a leitura individual, por escolha própria, de obras integrais; - ler expressivamente parte da obra escolhida; - exprimir reacções a obras; - apreciar, em livros, aspectos materiais e paratextuais (capa, ilustração, mancha gráfica; formato); - promover a leitura de um livro; - manifestar preferência por personagens, momentos de acção e espaços; - seleccionar palavras ou frases de um texto, de acordo com preferências individuais; - trocar impressões sobre leituras feitas; - imaginar possibilidades narrativas sugeridas pelo título de uma obra que não foi lida; - prever acontecimentos ou antecipar o desenlace em narrativas; - recontar/ resumir a obra lida com eventual recurso a elementos visuais (imagens, objectos, mímica, gesto…); - interpretar ilustrações de obras; - ilustrar uma obra; - pesquisar na Internet: bibliografias e biografias; - preencher uma caderneta do clube com as leituras efectuadas;