quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

A Abóbora-Menina

Embalada pela serenata da noite, a aboborinha voltou a adormecer.
O senhor José Barnabé Pé de Jacaré, dono da fazenda, veio pela manhã dar a volta costumada, com a senhora Feliciana Lauriana atrás, de cesta no braço para os feijões verdes. Diante da abóbora, parou admirado e disse:
- Que maravilha! Isto era pevide abençoada. Feliciana Lauriana, esta abóbora não se come, fica para semente. Quando estiver madura, telhado com ela.
- Qual semente! Para a panela. Não há nenhuma outra em termos e eu morro por caldo de abóbora com feijão-manteiga, adubado a presunto.
-Aí vens tu! – proferiu José Barnabé Pé de Jacaré em tom ralhado – Faz lá como quiseres, mas sempre te digo que assim redonda e corpulenta, ainda de poucas semanas, é milagre.
E depois de aparar à aboboreira as flores que iam a desabrochar para que a abóbora recebesse a seiva, seguiram o seu caminho (…).
O grilo, que se escondera na covinha, ouviu a conversa e saindo para o terreiro rompeu a cantalorar em tom de troça.
E ó abóbora, e ó aboborinha,
estás aqui, estás na panelinha!

Aquilino Ribeiro. «Mestre Grilo Cantava e o Gigante Dormia» (adaptado)

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