segunda-feira, 31 de dezembro de 2007

O Clube de Leitura deseja...


Ano Novo

Todos os anos é o mesmo! Chegamos a 31 de Dezembro, dia de S. Silvestre, e lá vem o dia 1 de Janeiro e o Novo Ano!
Neste dia, depois de termos festejado o Natal com a família, chega a vez da alegria, do barulho, dos amigos e da farra!
Muita gente se reúne para passar a meia-noite, para o "réveillon", que é uma palavra francesa que significa "despertar do dia", mas este despertar é muito especial.
Em muitos locais, especialmente nas aldeias e terras pequenas, a tradição manda que haja uma fogueira e que todos estejam à sua volta nesse momento, que se coma e beba e que se confraternize com amigos, vizinhos e familiares. Depois salta-se a fogueira, para espantar os medos.
Nas cidades, há quem passe o ano em casa e há que vá para salões e restaurantes onde há música, se come e se dança até chegar o momento tão esperado: a meia-noite.
Na passagem do ano, existem tradições, que variam consoante os locais e os hábitos:- Comer 12 passas, uma por cada mês do novo ano. Temos de fazer um desejo para cada uma. Dá sorte!- Ter uma moeda na mão à meia-noite. Dá dinheiro.- Subir a uma cadeira. Dá poder e altura: tudo de bom.
Depois bebe-se champanhe ou vinho do Porto e vai-se para a rua bater em tachos e fazer barulhos com gritos e assobios.É para espantar os maus espíritos do Ano Velho!
Em muitos locais há espectáculos lindos de fogo de artifício e música.
Lembra-te que, com os vários fusos horários, os primeiros a festejarem o Ano Novo são os australianos... Na América festeja-se depois de nós.
Há outros países em que o Ano Novo se festeja já em Janeiro, mas isso é outra história!
Ah! Mais uma coisa: é sempre bom (dá sorte) estrear uma peça de roupa no dia de Ano Novo. Muita gente recomenda que se estreiem cuecas... Mas, no fundo, o importante é ser algo de novo.
No novo ano há o costume de fazer uma lista de decisões para o Novo Ano. Aquilo que se quer fazer.

domingo, 30 de dezembro de 2007

Provérbios sobre Ano

O novo ano está a aproximar-se aqui ficam alguns provérbios:

"Ano novo, vida nova."
"Ano de neves, ano de bens."
"Ano de ameixas, ano de queixas."
"Ano de bugalhos, ano de trabalhos."
"Ano de lavrador, não é de pescador."
"Antes ano tardio do que vazio."
"O mau ano tem os dias longos."
"Ao cabo de um ano, tem o criado as manhas do amo."
"Metade do ano, com arte e engano; outra metade, com engano e arte."
"Um ano de Coimbra vale por três de tarimba."
"Ano de muito chocalho e pouco pescoço."
"O longo uso dos anos se converte em natureza."
"Não digas mal do ano até que seja passado."
"Ano de pouco pasto, de muito rasto."
"Ano de fartura, ano de amargura."
"Ano de trigo, ano de pêras."
"Ano de corrilhão, ano de pão."
"Ano de linho, ano de vinho."
"Ano de neve, paga o que deve."
"Os anos dão experiência."
"Ano bom passa rápido."

sábado, 29 de dezembro de 2007

Os dez anõezinhos da Tia Verde-Água

Era uma mulher casada, mas que se dava muito mal com o marido, porque não trabalhava nem tinha ordem no governo da casa; começava uma coisa e logo passava para outra, tudo ficava em meio, de sorte que quando o marido vinha para casa nem tinha o jantar feito, e à noite nem água para os pés nem a cama arranjada. As coisas foram assim, até que o homem lhe pôs as mãos e ia-a tocando, e ela a passar muito má vida. A mulher andava triste por o homem lhe bater, e tinha uma vizinha a quem se foi queixar, a qual era velha e se dizia que as fadas a ajudavam. Chamavam-lhe a Tia Verde-Água:
– Ai, Tia! vossemecê é que me podia valer nesta aflição.
– Pois sim, filha; eu tenho dez anõezinhos muito arranjadores, e mando-tos para tua casa para te ajudarem.
E a velha começou a explicar-lhe o que devia fazer para que os dez anõezinhos a ajudassem; que quando pela manhã se levantasse fizesse logo a cama, em seguida acendesse o lume, depois enchesse o cântaro de água, varresse a casa, aponteasse a roupa, e no intervalo em que cozinhasse o jantar fosse dobando as suas meadas, até o marido chegar. Foi-lhe assim indicando o que havia de fazer, que em tudo isto seria ajudada sem ela o sentir pelos dez anõezinhos. A mulher assim o fez, e se bem o fez melhor lhe saiu. Logo à boca da noite foi a casa da Tia Verde-Água agradecer-lhe o ter-lhe mandado os dez anõezinhos, que ela não viu nem sentiu, mas porque o trabalho correu-lhe como por encanto. Foram-se assim passando as coisas, e o marido estava pasmado por ver a mulher tornar-se tão arranjadeira e limposa; ao fim de oito dias ele não se teve que não lhe dissesse como ela estava outra mulher, e que assim viveriam como Deus com os anjos. A mulher contente por se ver agora feliz, e mesmo porque a féria chegava para mais, vai a casa da Tia Verde-Água agradecer-lhe o favor que lhe fez:
– Ai, minha Tia, os seus dez anõezinhos fizeram-me um servição; trago agora tudo arranjado, e o meu homem anda muito meu amigo. O que lhe eu pedia agora é que mos deixasse lá ficar.
A velha respondeu-lhe:
– Deixo, deixo. Pois tu ainda não viste os dez anõezinhos?
– Ainda não; o que eu queria era vê-los.
– Não sejas tola; se tu queres vê-los olha para as tuas mãos, e os teus dedos é que são os dez anõezinhos.
A mulher compreendeu a coisa, e foi para casa satisfeita consigo por saber como é que se faz luzir o trabalho.

Teófilo Braga
Contos Tradicionais Portugueses

sexta-feira, 28 de dezembro de 2007

O.V.N.I.S & E.T.’S

A professora empunhou o ponteiro, começou a explicar a matéria. Simplesmente era impossível ouvi-la. Levantou a voz. Que ruído ensurdecedor abafava a escola?
As crianças saíam dos lugares e assomavam às janelas. A professora seguiu-as. O que viu deixou-a de boca aberta: um disco voador rodopiava sobre as casas, cada vez mais baixo, aproximava-se, parecia preparar-se para descer no pátio do recreio.
- Deixe-nos sair...
- Nem pensar nisso! - exclamou ela.
- Mas deixou-nos sair quando caiu neve e os discos voadores são muito mais raros que a neve.
- Nem pensar nisso!
- Deixe-nos entrevistar o comandante para o jornal da escola. Que reportagem sensacional!
Ela deu meia volta à chave para se assegurar de que dali ninguém escapava e postou-se, tremendo de nervos e de curiosidade, em frente dos vidros, à espera do que viesse a acontecer.
Entretanto a notícia corria.
O radar do aeroporto foi o primeiro a dar o alerta.
Todos os postos de rádio interromperam a emissão para divulgar um breve comunicado;
- Objecto voador não identificado baixa sobre Lisboa. Dirige-se para o Lumiar.
- Virá directamente para os nossos estúdios, para o apresentarmos ao país? – interrogavam-se os homens da televisão.
- Virá declarar guerra? – interrogavam-se os militares do quartel.
- Virá com doentes a bordo para os tratarmos? –interrogavam-se os médicos do hospital.
Mas não.
Acabou pura e simplesmente por aterrar no pátio da escola.
- Vocês faltam tantas vezes sem razão e os marcianos parece que gostam de vir para a escola - comentou a professora.
- Pergunte-lhes a tabuada! – galhofavam uns.
- Ensine-lhes a História de Portugal - riam outros.
Os meninos mais medricas escondiam-se por debaixo das cadeiras e a Joana pegava em papel e lápis para desenhar a nave fluorescente que continuava fechada e silenciosa.
Entretanto os curiosos abandonavam casas, lojas, escritórios, para se colarem ao gradeamento.
O Ministro do Turismo, chegado à pressa, anunciava:
- Viajantes extraterrestres, um autocarro de luxo está à vossa disposição para visitarem os monumentos de Lisboa. Façam turismo! Tragam gente de todos os planetas para passar férias em Portugal!
Um cozinheiro fardado resolveu imitá-lo com a sua propaganda.
- Senhores marcianos, provem os melhores frangos no churrasco! Batatinhas fritas a estalar no restaurante da esquina!
Mas a nave continuava hermeticamente fechada.

Luísa Ducla Soares, «O Disco Voador» (adaptado)

quinta-feira, 27 de dezembro de 2007

O Palácio de Sorvete

Uma vez, em Bolonha, fizeram um palácio de sorvete mesmo na Praça Maior, e as crianças vinham de longe para lhe dar uma lambidela.
O telhado era de natas batidas, o fumo das chaminés de algodão-doce, as chaminés de fruta cristalizada. Tudo o resto era gelado: portas de gelado, paredes de gelado, móveis de gelado.
Um garoto minúsculo agarrou-se a uma mesa e, depois de lhe ter lambido as pernas uma a uma, apanhou com ela em cima, juntamente com os pratos, que eram de gelado de chocolate, o melhor.
Um polícia de giro, a certa altura, apercebeu-se de que havia uma janela a derreter-se. Os vidros eram de gelado de morango e liquefaziam-se em pequenos regatos cor-de-rosa.
- Depressa - gritou o polícia - mais depressa agora!
E, vai daí, todos se puseram a lamber mais depressa, não fosse perder-se uma gota daquela obra-prima.
-Um cadeirão! - implorava uma velhinha que não conseguia abrir caminho por entre a multidão. – Um cadeirão para a pobre velha. Quem mo traz? Com braços, se possível.
Um bombeiro generoso correu a levar-lhe um cadeirão de gelado de nata e pistácio, e a pobre velha, toda consolada, toca a lambê-lo, a começar precisamente pelos braços.
Foi um grande dia, aquele. E, por ordem dos médicos, ninguém teve dores de barriga.
Ainda hoje, quando as crianças pedem mais gelado, os pais suspiram:
- Mas, é claro, para ti teria que ser um palácio inteiro, como o de Bolonha.

Gianni Rodari, Histórias ao telefone, Ed. Teorema

quarta-feira, 26 de dezembro de 2007

Olá!!!


Depois de alguma ausência estou de volta.


Espero que tenham recebido muitas prendas e que entre elas estejam os nossos queridos amigos: os livros.


Boas leituras!

sábado, 22 de dezembro de 2007

Sei um ninho

De um lado, à direita surgia um tronco antigo, carcomido, que contava a história de muitos dias que já foram e os sinais das estações do ano.
Do outro, via-se um ramo de espinheiro, onde um ninho de cotovia espreitava. Dentro do ninho, um ovo. Branco, pequenino, redondo, assinalando a esperança que em cada Natal renasce, a vida que se renova quer acreditemos ou não nos deuses, quer aceitemos ou não que todos os anos há uma criança que espera nascer no coração cansado do mundo.
Às vezes, com os nossos olhos primeiros, o nosso sorriso antigo e à tona; às vezes, com o rosto de Emanuel, o da Galileia. Apenas.
Tanto faz, porque ele nasce na mesma, quer o aceitemos no espaço macio dos nossos sonhos, quer lhe fechemos as portas e o deixemos lá fora, ao relento da indiferença e do cepticismo mais duro.
Mas ali, na montra, entre um tronco velho e o ninho frágil, quem dormia era uma criança amassada em barro de Estremoz, alongada, não em palhinhas no meio de animais ingénuos como conta a tradição, mas, num banco de jardim.
Assim, talvez por casualidade, pelo olhar sensível da artista que montara aquele presépio tão original, ela resumia violentamente a história de todas as crianças sem lar, sem árvores, crescendo, sem datas para assinalar, sem milagres que lhe adocem os dias ou os projectos.
Ao relento, num banco de jardim, dorme uma criança que não vai ter Natal.
Tem as mãos frias e abertas.
Cresce, emergindo da flor do espinheiro e olhando a doçura do ninho, que sempre lhe estará interdita. É tão legível o que descubro nos símbolos que me detenho, comovida.
A legibilidade dos dias é, afinal, acessível. Basta estar atento. Basta descobrir e percorrer, com disponibilidade, o outro lado das cabalas.
Embrulhada na tarde e no vento, penso que a dona da livraria, sempre tão discreta, quase silenciosa, que comunica com os clientes com um sorriso triste mais do que com palavras, escreveu um poema sem preço, nos deu uma prenda linda sem papel de embrulho nem fita de enfeite, pelo qual nunca lhe pagarão direitos de autor.
Só espero que, porque é Natal, e nestes dias o impossível pode acontecer, do ovo nasça uma ave branca. E que a ave fique esvoaçando na livraria, interrompa os olhos distraídos de quem passa, obrigando-os a entrar.
Para comprar muitos, muitos livros.
Para folhearem os postais e descobrirem as ínfimas coisas belas que há na livraria do meu bairro.
Para ouvirem a música boa que lá está, sempre presente.
Para sorrirem e se aquecerem por dentro, porque a vida é fria, a rua é árida e a fraternidade é uma palavra velha que se deve acender, sobretudo agora, no Natal.

Maria Rosa Colaço, Não quero ser grande, Lisboa, Ed. Escritor, 1996

sexta-feira, 21 de dezembro de 2007

A boneca

— Não leves sempre essa boneca suja contigo para a cama — disse a mãe de Eva.
— A minha Anita não é nenhuma boneca suja. — respondeu Eva — A minha Anita é muito querida.
— Mas está muito feia — continuou a mãe. — Olha só para a cara e para os cabelos dela!
Quando se olha para a boneca Anita, assim, sem se gostar dela, tem de se admitir. Bonita, não é. As bochechas estão cinzentas e a esboroar-se de tantos beijos e tantas lavagens. Já não tem propriamente um nariz, apenas uma saliência suja, e dos cabelos castanhos já só ficou um pequeno tufo de cabelos ralos.
Isto não incomodava Eva, mas a mãe dizia-lhe constantemente:
— Não queres pedir uma boneca nova pelo Natal? — perguntava-lhe.
Eva apertava a Anita contra si e dizia:
— Não!
— Tenho outra ideia — disse a mãe. — Vamos levar a Anita a um hospital de bonecas e lá põem-lhe cabelo novo e outro nariz.
Eva defendia-se. Não queria entregar a Anita.
Mas, certo dia, Alex, o irmão mais velho, disse uma coisa feia, uma coisa muito má. Disse:
— A tua boneca é um careca tinhoso!
Eva desatou a chorar. Depois, observou a sua Anita pela primeira vez com olhos de ver. Era verdade! A cara da Anita estava cheia de nódoas e a descamar-se, e quase totalmente careca. Eva correu para a mãe.
— Achas — disse a soluçar — que no hospital das bonecas vão ser bons para a minha Anita?
— Mas claro que sim! — sossegou-a a mãe.
— Então… Por mim, podes levá-la…
Logo na manhã seguinte, a mãe foi ao hospital das bonecas. Era o único na cidade, pois já não havia muita gente que mandasse consertar bonecas.
No hospital das bonecas, um homem examinou a Anita.
— Tem pouco que se aproveite. Precisa de uma cabeça nova, e os braços e as pernas também deviam ser substituídos.
Apresentou à mãe diversas cabeças de bonecas, mas não havia nenhuma que fosse igual à da Anita.
— Além disso — continuou o homem — a reparação custa mais do que uma boneca nova.
A mãe de Eva procurou em todas as lojas de brinquedos uma boneca que, pelo menos, fosse mais ou menos semelhante à antiga Anita. Acabou por comprar uma do mesmo tamanho e com os mesmos cabelos castanhos. No resto, a nova boneca era um pouco diferente, mas encantadora, e tinha uma cara que se podia lavar com água.
Quando chegou a casa com as duas Anitas, a nova e a velha, Eva ainda estava no infantário. Mas Alex já tinha vindo da escola e descobriu a caixa no cesto de compras da mãe.
— Aha! — disse. — Compras de Natal!
— Uma boneca nova para a Eva — respondeu a mãe. — Mas ela não pode saber. Tem de pensar que é a sua Anita.
— Aha! — disse Alex. — Mentiras de Natal!
— Não sejas atrevido — disse a mãe. — É o melhor para a Eva.
— Deixa-a lá ficar com o careca tinhoso –— disse Alex.
A mãe arrumou a caixa com a nova boneca no armário da roupa.
— Fico contente por finalmente nos vermos livres daquela coisa tão estragada.
Atirou a Alex o saco de plástico com a antiga boneca.
— Toma — disse. — Mete-a no contentor do lixo, mas lá para o fundo.
Alex pegou na boneca e saiu do quarto a assobiar baixinho.
Desde que a Anita desaparecera, Eva perguntava por ela todos os dias.
— A minha Anita ainda está no hospital? O homem é simpático com ela? Ela não tem saudades? Vou mesmo voltar a tê-la pelo Natal?
E a mãe respondia sempre:
— Sim, Eva. Com certeza, Eva. Não te preocupes, Eva.
Para a noite de Natal, a mãe de Eva vestiu à nova boneca o vestido da Anita e pô-la debaixo da árvore. Com o vestido vermelho, achava a mãe, ficava mesmo parecida com a Anita.
Mas, quando estendeu a boneca a Eva e disse: — Ora vê como ficou linda a tua Anita! — Eva não aceitou e cruzou as mãos atrás das costas.
— Não! — gritou. — Essa não é a minha Anita!
E olhava decepcionada para a nova boneca:
— Eu quero a minha Anita… a minha Anita! — e começou a chorar baixinho sem parar.
A mãe não contara com isto e tentou consolar Eva. Mostrava-lhe outras prendas, levava-a à árvore de Natal, mas Eva mantinha os olhos baixos. Não queria ouvir nada nem ver prenda nenhuma.
— Anita! —queixava-se a menina. — Onde puseram a minha Anita?
Disse então Alex:
— Se não lhe devolverem o careca tinhoso, vai estragar-nos a festa de Natal.
— Mas… — balbuciou a mãe — tu deitaste…
— Achas? — perguntou Alex.
Correu ao quarto e regressou com um saco de plástico que meteu nas mãos de Eva.
— Anita! — gritou Eva, tirando do saco a velha boneca careca.
Alex sorria.
— E o que vais fazer agora à boneca nova?
— Esta? — perguntou Eva. — Vou dá-la a uma menina que eu não conheça.
— A uma menina… — repetiu Alex. — Ah, claro. Ela não pode ficar a saber que tens uma boneca careca fantástica!

Tilde Michels
Anne Braun (org.)WeihnachtsgeschichtenWürzburg, Arena Verlag, 1991Texto traduzido e adaptado

quarta-feira, 19 de dezembro de 2007

- O gato cinzento está com mau aspecto — observa Laura, empoleirada no alto do pequeno muro que separa o jardim do baldio. Mas o pai está a cortar a sebe e não ouve o que ela diz.— O gato cinzento está com mau aspecto; acho que está doente… — insiste ela.
A mãe não ouve, ocupada também a arrancar as ervas do passeio, o que Laura, aliás, também devia estar a fazer para a ajudar.
Então Laura repete para si, em voz baixa e grave:
— Parece que o gato cinzento vai morrer.
O gato sem nome nem casa tem o pelo descaído e o salto lento; não liga aos pássaros, já não tem fome, foge do sol e abriga-se entre dois pés de urtigas.
— É preciso chamar o veterinário — sugere Laura.
— Nem penses! Ele tem mais que fazer do que tratar os gatos vadios.
Desta vez, a mãe sempre resolvera responder.
— Não é vadio, porque eu acolhi-o e gosto dele — retorquiu Laura.
Laura só faz o que lhe apetece. Amanhã, a caminho da escola, vai bater à porta do veterinário, como fez da outra vez por causa de um passarinho caído do ninho e de um ouriço-cacheiro meio esmagado por uma bicicleta. É um veterinário idoso muito simpático, que não a manda dar uma volta.
“Amanhã vou esconder o gato na minha pasta, está decidido.”
No dia seguinte, não consegue encontrar o gato em lado nenhum e são já mais que horas de ir para a escola. Laura vai então sem o gato. Bate à porta do veterinário para pedir um conselho.
Mas é a mulher que vem à porta e lhe dá uma resposta seca:
— O meu marido está inundado de trabalho.
“Inundado”? O rio inunda as terras; a banheira, quando demasiado cheia, inunda o quarto de banho… mas um veterinário “inundado”? Então, quem há-de aconselhar Laura? Não quer que se riam dela, não quer ser motivo de troça.
Durante o recreio do meio-dia, Laura escapuliu-se do pátio. Se a professora soubesse! Se a mãe a visse! Laura sabe que pode ser suspensa por três dias: “Que falta de responsabilidade!”. Ela bem sabe, mas o gato cinzento está com tão mau aspecto…
Que surpresa! É um rapaz novo que vem atender.
— O meu pai vai aposentar-se e sou eu que vou substitui-lo — explica com gentileza, ao ver o espanto de Laura.
Ela gaguejou ao falar do gato e o veterinário compreendeu num ápice:
— Esta tarde, Laura, não tenho muito trabalho, e por isso vou dar uma volta para esse lado.
Depois das quatro horas, ao regressar da escola, Laura encontrou um bilhete que a mãe lhe leu:
Lamento! Tive de ajudar o teu gato a partir sem sofrer demasiado… Foi pena, mas era melhor para ele. Quando quiseres…
Até breve, Laura!

Sérgio


Laura ouviu a mãe falar a sério de eutanásia, de injecção, e concluir por fim:
— Tens um amigo novo. Sérgio é um nome estranho, que me faz pensar no tecido do casaco que eu usava quando tinha a tua idade e que…
Mas Laura não tinha vontade de ouvir as recordações da mãe. Foi chorar sozinha para cima do pequeno muro. Perguntou a si mesma para onde teria Sérgio levado o gato morto. Pareceu-lhe tê-lo visto, cinzento e de pêlo brilhante, escapar-se por entre as ervas altas; bem sabe que foi uma ilusão. Depois, o pintarroxo-que-tinha-medo- do-gato voltou para o terraço e Laura riu-se das suas bicadas ávidas. Saltou rapidamente do seu posto de observação para ir buscar migalhas frescas.
Junto do pinheiro de Natal, está um presente que dá saltos. Contrariamente ao habitual, a mãe sugere que se abram as prendas de Natal antes da missa do galo. Laura nem quer acreditar. Há muitas coisas a mudar nesta casa, de há uns tempos para cá. Talvez desde que o pai “esteve às portas da morte”, como diz a avozinha. Laura ficou a saber que isso significa escapar à morte. Terá ela suspeitado da gravidade do estado de saúde do pai, encontrado desmaiado no jardim enquanto ela estava na escola?
No entanto, ele está aqui esta noite, o pai, bem vivo e a rir-se, quando a mãe mostra à Laura a prenda que mexe: um gatinho cinzento.
— Parece filho do gato cinzento. Amanhã vou logo apresentá- lo ao Sérgio.


Colette Nys-Mazure
Contes d’EspéranceParis, Desclée de Brouwer, 1998

terça-feira, 18 de dezembro de 2007

O Pinheirinho

Lá fora, na floresta, encontrava-se um pequeno e belo Pinheirinho. Nasceu num lugar agradável, onde havia muita luz e muito ar. Estava rodeado de muitas árvores maiores — pinheiros, e abetos também — mas o Pinheirinho ansiava por crescer mais. Não dava valor ao ar fresco, ou às crianças que vinham tagarelar para a floresta e procurar morangos e framboesas. Passavam muitas vezes com um cesto cheio, sentavam-se junto do Pinheirinho e diziam: “Que bonito que é aquele pequenino!”, mas não era nada disso que o Pinheirinho queria ouvir.
No ano seguinte, tinha crescido um rebento novo e no ano que se seguiu cresceu ainda mais. Pode-se sempre dizer, pelo número de anéis que tem no tronco, há quantos anos uma árvore está a crescer.
— Oh, se eu ao menos fosse tão grande como os outros! — suspirava o Pinheirinho. — Então, espalharia os meus ramos para bem longe e, do meu topo, estaria atento a todo o mundo. Os pássaros construiriam ninhos nos meus ramos e, quando o vento soprasse, apenas abanaria, tão orgulhoso como as outras árvores.
No Inverno, quando a neve pousa por todo o lado branca e brilhante, uma lebre veio a correr e saltou por cima do Pinheirinho, o que o pôs zangado. Mas, três Invernos passado, a pequena árvore tinha crescido tanto que a lebre teve de a contornar.
“Oh, crescer, crescer e envelhecer! É, de certeza, a melhor coisa do mundo”, pensou a árvore.
No Outono, os lenhadores vinham sempre para abater algumas das árvores maiores. O Pinheirinho estremeceu de medo, pois as árvores grandes caíam estrondosamente no chão e os ramos eram cortados para que parecessem bastante despidas. Eram colocadas em camiões e levadas dali. “Para onde iriam?”, perguntou-se o Pinheirinho.
Na Primavera, quando as andorinhas e as cegonhas chegaram, a árvore perguntou-lhes:
— Sabem para onde vão as árvores? Viram-nas?
As andorinhas responderam que não, mas a cegonha disse:
— Sim, penso que sim. Vi muitos navios novos, quando deixei o Egipto. Tinham mastros muito altos; penso que eram as árvores. Cheiravam a abetos. Tudo o que posso dizer é que eram altas e imponentes — muito imponentes.
— Quem me dera ser suficientemente grande para ir para o mar! — suspirou o Pinheirinho. — Que tipo de coisa é o mar e a que se assemelha?
— Levaria muito tempo para explicar tudo isso — disse a cegonha. E partiu.
— Devias estar feliz por ainda seres jovem e forte — disseram os raios de Sol. E o vento e a chuva beijaram a árvore, mas o Pinheirinho não queria saber do que eles diziam.
Por altura do Natal, foram cortadas muitas árvores jovens; árvores que eram mais jovens e mais pequenas do que este Pinheirinho impaciente. A estas belas e jovens árvores não foram cortados os ramos quando foram colocadas nos camiões e levadas para fora do bosque.
— Para onde vão? — perguntou o Pinheirinho. — Algumas são muito mais pequenas do que eu. Porque é que não lhes cortaram os ramos? Para onde vão ser levadas?
— Nós sabemos! Nós sabemos! — chilrearam os pardais. — Andamos sempre a espreitar pelas janelas na cidade e, por isso, sabemos para onde vão. Vão ser decoradas da maneira mais bonita que possas imaginar. Olhámos pelas janelas e vimos que eram colocadas em vasos, numa quente sala de estar, e decoradas com as coisas mais bonitas — maçãs douradas, bolos de mel, brinquedos e centenas de velas. — E depois? — perguntou o Pinheirinho, com todos os ramos a tremer. — E depois? O que acontece depois?
— Bem — disse o pardal — só vimos isso, mas era maravilhoso.
— Talvez isso me aconteça um dia! — gritou o Pinheirinho. — Isso ainda era melhor do que viajar pelo mar. Se pelo menos agora fosse Natal! Oh, se ao menos me levassem! Se ao menos estivesse numa sala de estar quente, decorado com coisas bonitas! E depois? O que aconteceria? Devia ser ainda mais maravilhoso. Porque me enfeitariam? Oh, quem me dera que isto me acontecesse!
— Sê feliz aqui connosco — disseram o ar e a luz do Sol. — Sê feliz aqui na floresta.
Mas o Pinheirinho não era nada feliz. Crescia, crescia e continuava ali, verde, verde-escuro. As pessoas que o viam diziam: — É uma árvore muito bonita! E, por altura do Natal, foi cortada antes dos outros. O machado cortou-a bem fundo, no tronco, e a árvore caiu para o chão com um suspiro: sentiu uma dor, e agora estava triste por ter de deixar o lar. Sabia que nunca mais iria ver os amigos, os pequenos arbustos e as flores — talvez até os pássaros.
A árvore só voltou a si quando estava a ser descarregada num quintal, juntamente com outras árvores, e ouviu um homem dizer:
— Esta é a melhor. Só queremos esta!
Depois, vieram dois criados vestidos com uniformes brilhantes e levaram o Pinheirinho para uma sala enorme e bonita. Havia, por todo o lado, quadros pendurados nas paredes e, junto do fogão, estavam enormes jarros chineses com leões.
Havia cadeiras de baloiço, sofás de seda, mesas cobertas de livros ilustrados e centenas de brin quedos por todo o lado.
O Pinheirinho foi posto dentro de um vaso grande com areia. A árvore tremeu! O que iria acontecer a seguir? Os criados e as crianças começaram a enfeitá-lo. Nos ramos, penduraram pequenos sacos feitos de papel colorido. Cada saco era enchido com guloseimas; maçãs douradas e nozes pendiam, como se tivessem nascido ali, e centenas de velinhas foram atadas aos galhos. Bonecas que pareciam pessoas de verdade pendiam de outros ramos e, mesmo no topo da árvore, estava fixada uma estrela de latão. Era magnificente, extraordinário!
— Esta noite — disseram todos — esta noite, a estrela brilhará.
— Oh — disse o Pinheirinho — se ao menos já fosse noite! Oh, espero que acendam as velas brevemente. Será que as árvores vêm da floresta para me ver? E será que os pardais vão espreitar pelas janelas? Será que vou ficar aqui ornamentado para sempre?
Todas estas perguntas causaram dores de costas à árvore e as dores de costas são tão más para as árvores como as dores de cabeça para as pessoas. Por fim, as velas foram acesas. Que brilho, que esplendor! O Pinheirinho tremeu tanto que uma das velas pegou fogo a um ramo verde, mas foi rapidamente apagado.
E, naquele momento, as portas foram abertas de par em par e as crianças entraram cheias de pressa. Olharam fixamente e em silêncio para a árvore, mas apenas por um minuto. Começaram a gritar de alegria e a dançar à volta da árvore, puxando os presentes.
“O que estão a fazer?”, pensou o Pinheirinho. “O que se está a passar?”
As velas arderam até ao fim, as crianças tiraram as guloseimas da árvore e dançaram com os brinquedos novos. Já ninguém olhava para a árvore, excepto um homem idoso que se aproximou e espreitou por entre os ramos para ver se todas as nozes e maçãs tinham sido comidas.
— Uma história! Uma história! — gritavam as crianças, e levaram, para junto da árvore, um homem divertido, que se sentou mesmo debaixo dela.
— Vamos fingir que estamos no bosque verde — disse — e que a árvore consegue ouvir o conto.
E o homem divertido contou o conto de Klumpey-Dumpey, que estava sempre a cair pelas escadas abaixo e, já no fim, casou com uma princesa. O Pinheirinho ficou bastante silencioso e pensativo. Os pássaros do bosque nunca tinham contado uma história como esta. Klumpey-Dumpey sempre a cair pelas escadas abaixo e, mesmo assim, casou com uma princesa.
— Bem! Bem! — disse o Pinheirinho. — Quem sabe? Talvez eu também tenha de cair pelas escadas abaixo e casar com uma princesa! — e estava ansioso por ser de novo decorado com velas, brinquedos e frutos, na noite seguinte.
Mas, de manhã, os criados vieram tirá-lo da sala, levaram-no para o sótão e puseram-no num canto, onde não entrava a luz do dia. “O que significa isto?” pensou a árvore. “O que estou a fazer aqui? O que está a acontecer?”
Encostou-se à parede, pensou e pensou. E teve tempo suficiente, pois passaram-se dias e noites e ninguém voltou lá a subir.
A árvore parecia ter sido totalmente esquecida.
— Agora, é Inverno lá fora — disse o Pinheirinho. — A terra está dura e coberta de neve, e as pessoas não podem plantar-me. Suponho que devo ficar aqui abrigado, até que venha a Primavera. Que atenciosos! Mas que pessoas boas! Se ao menos aqui eu não estivesse tão às escuras e tão sozinho!… Era bonito lá fora, na floresta, quando a neve pousava espessa, e aquela lebre vinha saltar por cima de mim; mas, na altura, eu não gostava. Isto aqui em cima é terrivelmente solitário! Mas que pessoas boas!
De repente, dois ratinhos aproximaram-se lentamente. Cheiraram o Pinheirinho e, depois, subiram para os ramos.
— Está muito frio aqui em cima — disseram os dois ratinhos. — Também achas, árvore velha?
— Não sou velha — disse o Pinheirinho.
— De onde vens? — perguntaram os ratos. — E o que conheces?
Eram muito inquisitivos.
— Conta-nos sobre o lugar mais bonito do mundo! Já estiveste lá?
— O lugar mais bonito do mundo — disse a árvore — é a floresta, onde o Sol brilha e os pássaros cantam. E, depois, contou aos ratos tudo sobre a sua juventude. Os ratinhos ouviram e disseram:
— Tantas coisas que já viste! Deves ter sido muito feliz!
— Fui — disse o Pinheirinho. — Aqueles foram, realmente, tempos de felicidade.
Mas, depois, contou-lhes sobre a Véspera de Natal, quando tinha sido enfeitado com guloseimas e velas.
— Oh! — disseram os ratinhos. — Como foste tão feliz, árvore velha!
— Não sou velha — disse a árvore. — Só saí da floresta este Inverno.
— Mas que histórias maravilhosas podes contar! — disseram os ratinhos.
E no dia seguinte, vieram com mais quatro ratinhos para ouvir o que a árvore tinha para contar.
Assim, o Pinheirinho contou-lhes a história do Klumpey-Dumpey e os ratinhos correram direitos para o topo da árvore, cheios de satisfação. Na noite seguinte, vieram muito mais ratos, e o Pinheirinho contou outra vez a mesma história. Mas, quando descobriram que a árvore não sabia mais histórias, os ratos ficaram aborrecidos e foram-se embora.
O Pinheirinho ficou triste.
— Era muito agradável, quando os ratinhos divertidos ouviam a minha história, mas em breve vai chegar a Primavera. Vou ficar tão feliz quando me tirarem deste local solitário!…
Quando chegou a Primavera, as pessoas vieram remexer no sótão. Um criado levou a árvore para baixo, onde a luz do dia brilhava.
“Agora, a vida vai começar de novo!”, pensou a árvore.
Sentiu o ar fresco e os raios do Sol no pátio. O pátio estava perto de um jardim, onde as rosas estavam em flor, as árvores cheias de folhas e as andorinhas a cantar.
— Agora, tenho de viver! — disse a árvore, alegremente, e esticou os ramos. Mas, meu Deus! Estavam todos murchos e amarelos. Ficou a um canto, entre as urtigas e as ervas daninhas. A estrela de latão ainda lá estava e brilhava com a luz do Sol.
No pátio, as crianças, que no Natal tinham dançado à volta da árvore, estavam a brincar. Uma delas trepou à árvore e tirou a estrela dourada.
— Vejam o que está agarrado a este velho e feio Pinheirinho — disse a criança, e começou a pisar-lhe os ramos até partirem debaixo das botas.
E a árvore olhou para todas as flores e para o belo jardim e, depois, para ela própria, e desejou ter ficado no canto escuro do sótão. Pensou na juventude fresca na floresta, na Véspera de Natal feliz e nos ratinhos que ouviram com tanta alegria a história do Klumpey-Dumpey.
— Passado! Passado! — disse a velha árvore. — Acabou tudo. Se ao menos tivesse sido mais feliz naquela época.
E veio um criado e cortou a árvore aos pedacinhos. Estava ali um feixe enorme. Ardia resplandecente no fogão, suspirava profundamente e cada suspiro era uma pequena explosão. As crianças sentaram-se junto da lareira, olharam para ela e gritaram:
— Zás! Trás!
Mas, a cada explosão, que era um suspiro profundo, a árvore pensava num dia de Verão na floresta, ou numa noite de Inverno, quando as estrelas brilhavam. Pensava na Véspera de Natal e no Klumpey-Dumpey, a única história que tinha ouvido ou que sabia contar; e, depois, a árvore foi queimada.
As crianças brincaram no jardim e o mais novo usou a estrela dourada que a árvore tinha usado na sua noite mais feliz.
Agora, tudo acabara. A vida da árvore tinha terminado e o conto também.

Hans Christian Andersen
O grande livro do Natal

Ian Whybrow (org.)Porto, Edições Asa, 2004

domingo, 16 de dezembro de 2007

O Primeiro Natal do Pardalito

Aqui há coisa de três semanas, um pardal do Rossio, daqueles que escolheram para poiso e morada os ramos das árvores que circundam a dita praça, começou assim a história que vamos contar:
— Companheiros pardais, pardalitos e pardalões, escutem todos, a notícia é importante.
Juntou-se a pardalada. Quem ali passe todas as tardes, à hora da saída dos empregos, não deve estranhar o arruído que vem das árvores despidas de folha, mas cheias, cheiinhas de passarinhos tagarelas. As pessoas andam na sua vida muito apressadas, e nem sequer dão conta da chilreada doida dos pardais:
“Chega-te para lá! Aí sou eu”
“Olha o pardalão a querer tomar-me o lugar…”.
“Ai que ainda te dou uma bicada…”.
“Não me provoques!”.
“Toma que é para saberes”.
“Deixa-me em paz”.
Mas voltemos à nossa história.
Oiçamos o que o pardal tem para dizer:
— Peço silêncio, se não calo-me — piava ele, tentando impor a ordem à assembleia.
Demorou o seu tempo.
Os pardais são uns espalhafatosos e uns gralhadores incorrigíveis.
— A notícia que vos trago importa a todos. Há bocadinho, estava eu poisado num ramo baixo, e ouvi uma conversa entre um cauteleiro e um engraxador. Sabem do que estavam a falar?
— De futebol — arriscou um.
— Nada disso. Estavam a falar da Lotaria do Natal, imaginem! Portanto, o Natal está à porta, meus amigos. Espero que saibam o que isto significa…
Os pardais mais jovens não sabiam, mas calcularam que devia ser coisa grave, porque os pardais velhos, mesmo os mais gaiteiros e risonhos, ficaram, subitamente, de bico caído. As expressões eram de alarme e desalento:
— Temos de mudar de vida.
— Que desconforto!
— Deviam ter-nos avisado.
— O tempo não está para grandes voos.
E cada qual debandou para o seu ramo.
Neste ponto da história, parece-nos indispensável ouvir a fala de um avô pardal para o seu neto que, tal como vocês, amigos leitores, não percebera patavina do sucedido.
— Na quadra do Natal, que é uma grande festa dos homens — contava ele — multiplicam-se e crescem as luminárias por toda a parte. Nesta praça, então nem queiras saber! Fica tudo cheio de luzes e luzinhas de muitas cores, amarelas, azuis, vermelhas, verdes, que nos põem tontos. Onde os homens encontram um sítio para pendurar uma daquelas pêras de vidro que deita luz, penduram.
— Deve ser bonito — observou o neto.
— Bonito talvez seja, mas não para nós. Aparecem fios por toda a parte e, nos ramos das nossas árvores, estendem tantos, com as tais pêras penduradas, que ninguém se entende. Há dois anos, aproximei-me de uma dessas pêras, que se tinha partido, e apanhei um arrepio pelo corpo todo que julguei que me ficava de vez!
— Então para onde vão os pardais passar o Natal? — perguntou o pardalito, atarantado.
— Saltinho aqui, saltinho acolá, alguns escondem-se numas palmeiras, lá para cima, num sítio que os da cidade chamam Avenida. Outros conseguem chegar a um jardim, que me dizem ser muito tranquilo e saudável, um tal Jardim Botânico ou coisa parecida.
— E nós, avô?
— Nós ficamos. Podíamos ir para um telhado próximo, se não andassem por lá os gatos que têm olhos mais perigosos do que todas as luminárias juntas. Olha, naturalmente, vamos para um sítio sossegado que eu conheço, num buraco daquele edifício, ali, no cimo da praça. É um bocado desabrigado e pouco cómodo, mas vais poder dizer, daqui em diante, que dormiste no Teatro Nacional…
Assim que chegaram os electricistas com as escadas, os cabos e os fios, a pardalada sumiu-se…Numa destas noites, o pardalito deixou o avô a dormir com a cabeça debaixo da asa, e foi dar uma voltinha pelos arredores do seu novo poiso. O Rossio silencioso e exuberantemente iluminado pareceu-lhe um jardim de sonho.
— Tanta luz de tanta cor! — exclamou.
Nesse momento, um avião sobrevoava a cidade, em direcção ao aeroporto. No escuro do céu só se distinguia as luzes vermelhas da cauda.
— Olha, lá vão duas luzes a fugir…
E dispunha-se a voar atrás delas, se o avô não tivesse acordado, entretanto.
— Para onde ias? — perguntou-lhe ele.
O pardalito explicou.
Comentário do velho pardal:
— Que patetice! Ainda tens muito que aprender, pequeno, até te transformares num pardalão sabido!
É o que nós também achamos, ao cabo desta história.


António Torrado

sábado, 15 de dezembro de 2007

A manhã do dia de Natal

Rob tinha quinze anos e vivia numa quinta.
Todas as madrugadas se arrastava para fora da cama para ajudar a mungir. Às vezes, sentia que o esforço era demasiado.Rob gostava do pai. Não sabia até que ponto, quando um dia, um pouco antes do Natal, ouviu o pai a dizer à mãe:
― Mary, custa-me muito chamar o Rob de manhã. Ele está a crescer muito depressa e precisa de dormir. Gostava de conseguir desembaraçar-me sozinho.
― Mas não consegues, Adam. A voz da mãe era determinada.
― Eu sei ― disse o pai lentamente ― mas a verdade é que me custa mesmo ter de o chamar.
Ao ouvir estas palavras, Rob sentiu algo a mexer dentro dele: o pai amava-o! Nunca antes pensara nisso. Passou a levantar-se mais depressa. O sono fazia-o tropeçar e vestia a roupa com os olhos bem fechados. Mas, mesmo assim, levantava-se.
Na véspera de Natal do ano em que fazia quinze anos, estava deitado a olhar pela janela do sótão e a desejar ter um melhor presente para o pai do que uma gravata de dez cêntimos comprada na loja.Lá fora, as estrelas brilhavam, e havia uma em particular que lhe parecia ser a Estrela de Belém.
― Pai ― perguntara uma vez ― o que é um estábulo?
― É apenas um celeiro como o nosso ― respondera o pai.
Então Jesus nascera num celeiro, e fora para um celeiro que os pastores e os reis magos se tinham dirigido, com os seus presentes de Natal.
Ficou siderado com a ideia. Por que não dar um presente especial ao pai? Podia levantar-se cedo, mais cedo do que as quatro horas, e esgueirar-se para o celeiro para mungir. Faria tudo – mungir e limpar – sozinho. Quando o pai chegasse, veria tudo já feito. E saberia quem o fizera.
Nessa noite, deve ter acordado umas vinte vezes. Às três menos um quarto, levantou-se e vestiu-se. Desceu silenciosamente as escadas, tendo especial cuidado com as tábuas que rangiam, e saiu. Uma grande estrela cor de ouro avermelhado pairava por cima do celeiro. As vacas olhavam-no, sonolentas e surpreendidas.
Nunca antes mungira sozinho, mas parecia fácil. Não parava de pensar na surpresa que o pai teria. Sorria e mungia com segurança, deitando para a selha dois fortes jactos, espumosos e perfumados. As vacas estavam surpreendidas mas anuíam. Era a primeira vez que se portavam bem, como se soubessem que era Natal.
A tarefa foi desempenhada com mais facilidade do que habitualmente. Pela primeira vez, mungir não era penoso. Era algo de diferente: um presente para um pai que o amava.De volta ao quarto, só teve tempo de tirar a roupa no escuro e de saltar para a cama, porque já ouvia o pai a levantar-se. Cobriu a cabeça com os lençóis para silenciar a respiração ofegante. A porta abriu-se.
― Rob! ― chamou o pai. ― Temos de nos levantar, filho, mesmo sendo Natal.
― ‘Tá bem ― disse com sono.
― Vou indo ― disse o pai. ― Vou pondo as coisas a andar.
A porta fechou-se e Rob ficou quieto, a rir com os seus botões. Os minutos nunca mais passavam – dez, quinze, não sabia quantos – até que ouviu de novo os passos do pai.
― Rob!
― Sim, Pai?
O pai estava a rir, um riso esquisito, soluçante.
― Pensavas que me enganavas, não?
― É por ser Natal, Pai!
O pai sentou-se na cama e apertou-o contra si, num grande abraço. Estava escuro e não conseguiam ver os rostos um do outro.
― Agradeço-te, filho. Nunca ninguém fez coisa mais bonita…
― Oh, Pai.
Não sabia o que dizer. O seu coração transbordava de amor.
― Bom, parece que posso voltar para a cama, ― disse o pai, volvido um momento.
― Espera… estás a ouvir? Os pequeninos já estão a acordar. Agora que penso nisso, nunca vos vi a olhar pela primeira vez para a árvore de Natal. Estava sempre no celeiro. Anda daí!
Rob levantou-se, vestiu-se de novo e desceram para ver a árvore de Natal. Depressa o Sol tomou o lugar da estrela. Oh, que Natal aquele, e como o seu coração quase rebentou de timidez e alegria quando o pai contou à mãe e aos mais novos que ele, Rob, se tinha levantado sozinho.― O melhor presente de Natal que alguma vez tive, e hei-de recordá-lo, meu filho, todos os anos na manhã de Natal, enquanto for vivo.


Pearl S. Buck

sexta-feira, 14 de dezembro de 2007

A Caixinha de Beijos

Há algum tempo atrás, um homem castigou a sua filhinha de três anos por desperdiçar um rolo de papel de presente dourado.
O dinheiro era pouco naqueles dias, razão pela qual o homem ficou furioso ao ver a menina a embrulhar uma caixinha com aquele papel dourado e a colocá-la debaixo da árvore de Natal.
Apesar de tudo, na manhã seguinte, a menina levou o presente ao seu pai e disse: “Isto é para ti, Papá!”
Ele sentiu-se envergonhado da sua reacção furiosa, mas voltou a “explodir” quando viu que a caixa estava vazia.
Gritou e disse: “Tu não sabes que, quando se dá um presente a alguém, se coloca alguma coisa dentro da caixa?”
A menina olhou para cima, com lágrimas nos olhos, e disse: “Oh, Papá, não está vazia. Eu soprei beijos para dentro da caixa. Todos para ti, Papá.”
O pai quase morreu de vergonha, abraçou a menina e suplicou-lhe que lhe perdoasse.
Dizem que o homem guardou a caixa dourada ao lado da sua cama por anos e, sempre que se sentia triste, mal humorado, deprimido, pegava na caixa e tirava um beijo imaginário, recordando o amor que a sua filha ali tinha colocado.
De uma forma simples, mas sensível, cada um de nós tem recebido uma caixinha dourada, cheia de amor incondicional e de beijos dos nossos pais, filhos, irmãos e amigos…
Ninguém possui uma coisa mais bonita do que esta.

quinta-feira, 13 de dezembro de 2007

FALAVAM-ME DE AMOR

Quando um ramo de doze badaladas
se espalhava nos móveis e tu vinhas
solstício de mel pelas escadas
de um sentimento com nozes e com pinhas,


menino eras de lenha e crepitavas
porque do fogo o nome antigo tinha
se em sua eternidade colocavas
o que a infância pedia às andorinhas.


Depois nas folhas secas te envolvias
de trezentos e muitos lerdos dias
e eras um sol na sombra flagelado.

O fel que por nós bebes te liberta
e no manso natal que te conserta
só tu ficaste a ti acostumado.


Natália Correia, "O Dilúvio e a Pomba". 1979

segunda-feira, 10 de dezembro de 2007

É Natal

É Natal e por esse Mundo,
Quantos Corações sem Esperança
Quantas Lágrimas Rolando
Num Rostinho de Criança

Quanta Criança Descalça,
Rotinha, Magra, Faminta,
Apelando para o Mundo
Na Rua Estende a Mãozita...

Ah se eu fosse Poderosa
Bem Mais do que um Simples Ser,
Não Haveria no Mundo
Uma Criança a Sofrer

Por isso meu Bom Jesus
Quando o Sino Badalar
Vou fazer uma Oração
Tua Imagem Adorar

Pedirei Paz para o Mundo
Muito Amor para os Pequeninos
Alegria para os que Choram
E Pão para os Pobrezinhos

E Ajudando os que Sofrem
A Cada um Dando a Mão
Passaremos um Natal
Com mais Paz no Coração.

Maria da Luz Pedrosa

domingo, 9 de dezembro de 2007

Sabia Que...

. A quadra natalícia não se resume a um ou dois dias, mas sim aos 12 dias que se situam entre o Natal e o dia de Reis, já na Época Medieval assim o era;

·Os postais de Natal surgiram em 1843, o seu criador foi John Callcott Horsley, este criou o primeiro postal de Natal a pedido de um amigo;

·Os pratos de Natal têm origem Medieval. Cada país tem as suas comidas tradicionais para o Natal, sendo grande parte destas são feitas com frutos secos, já que estes eram uma especialidade de Idade Média;

·O azevinho era uma planta sagrada para os druidas, na cultura celta.

·Em alguns países são atribuídos nomes às renas que puxam o trenó do Pai Natal. Na tradição anglo-saxónica existem oito renas: Dasher, Dancer, Prancer, Vixen, Comet, Cupid, Donder e Blitze. Posteriormente, acrescentou-se uma outra rena de nome Rodolfo, esta tem a particularidade de ter um nariz vermelho que brilha, logo ela é a rena que lidera no trenó, já que consegue iluminar o caminho. A criação de Rodolfo deu-se em 1939, para um anúncio de Montgomery Ward Company.

sábado, 8 de dezembro de 2007

NATAL À BEIRA-RIO

É o braço do abeto a bater na vidraça,
E o ponteiro pequeno a caminho da meta!

Cala-te, vento velho!
É o Natal que passa,

A trazer-me da água a infância ressurrecta.

Da casa onde nasci via-se perto o rio.

Tão novos os meus Pais, tão novos no passado!

E o Menino nascia a bordo de um navio

Que ficava, no cais, à noite iluminado...

Ó noite de Natal, que travo a maresia!

Depois fui não sei quem que se perdeu na terra.

E quanto mais na terra a terra me envolvia

E quanto mais na terra fazia o norte de quem erra.

Vem tu, Poesia, vem, agora conduzir-me

À beira desse cais onde Jesus nascia...

Serei dos que afinal, errando em terra firme,

Precisam de Jesus, de Mar, ou de Poesia?

David Mourão-Ferreira, "Obra Poética". 1948-1988

sexta-feira, 7 de dezembro de 2007

A História do Pai Natal

O Pai Natal tem vários nomes dependo do país e cultura, mas independentemente do nome que ele recebe, trata-se sempre de S. Nicolau, um senhor muito simpático e generoso, que nasceu no ano de 350 d.C., em Patara.

Depois de viajar por muitos sítios, S. Nicolau decidiu ir viver em Mira, onde anos mais tarde tornou-se bispo da Igreja Católica. Muitos milagres lhe são atribuídos e grande parte destes relacionam-se com a doação de presentes. Ele, hoje, ainda é vivo já que a sua Fonte de Vida é a crença das pessoas na sua existência, quando ninguém mais acreditar no Pai Natal é quando ele morre!

Actualmente ninguém sabe ao certo onde é que o Pai Natal vive, uns dizem que é na Noruega, outros dizem que é na Finlândia e ainda outros dizem que ele vive no Pólo Norte. A verdade é que o Pai Natal não quer que ninguém saiba onde é que ele mora, para conseguir trabalhar sem ser incomodado, pois o seu trabalho não se resume a distribuir os presentes na noite de Natal, é também necessário fazer os presentes, saber o que cada criança pediu e o que cada uma realmente merece.


O Pai Natal tem uma lista, que actualmente já é computorizada, de todas as crianças do mundo. O Pai Natal e os seus ajudantes, os duendes, através dessa lista sabem onde é que cada criança mora e assim podem observar o seu comportamento ao longo do ano.


Para conseguir entregar todos os presentes numa só noite, o Pai Natal tem de usar a sua magia, tanto o seu trenó como as suas renas são mágicas. As renas do Pai Natal são nove: Dasher, Dancer, Prancer, Vixen, Comet, Cupid, Donder, Blitze e Rodolfo. A rena que lidera o trenó é o Rodolfo, já que este tem um nariz brilhante que ilumina todo o caminho.

Para mandar a tua carta ao Pai Natal podes utilizar 3 métodos diferentes:
• Enviar pelo correio;
• Enviar um e-mail pela Internet;
• Simplesmente deixar a tua carta no presépio de tua casa (o Pai Natal ou um dos seus ajudantes vai lá busca-la).

Independentemente do método que escolheres deves sempre dizer aos teus pais quais são os presentes que queres, porque às vezes os ajudantes do Pai Natal são desorganizados e perdem as cartas. Quando isso acontece, o Pai Natal manda um dos seus ajudantes ir perguntar aos teus pais o que é que tu pediste. Por vezes os meninos recebem presentes que não corresponde ao que pediram, isso acontece por vários motivos:
• Não se portaram bem e o Pai Natal acha que não merecem o que pediram;
• A lista é muito grande e o Pai Natal não pode dar tudo o que pediram, pois ele também tem de dar presentes aos outros meninos;
• O Pai Natal não dá presentes que os pais não dariam (exemplo: brinquedos perigosos).

Quando o Natal acaba, o Pai Natal vai de férias com a Mãe Natal, afinal ele trabalhou muito e tem de recuperar as suas forças para no próximo ano voltar a preparar tudo para que o Natal seja um sucesso.


quinta-feira, 6 de dezembro de 2007

Maria e o anjo Gabriel

Maria vivia na cidade de Nazaré, que fica nas colinas da Galileia. Estava prometida para casar com José, descendente de David, que era carpinteiro.
Um dia, Deus enviou a Maria um anjo, o anjo Gabriel, que lhe disse:
- Salvé, ó cheia de graça, o Senhor está contigo.
Maria não entendeu o que aquelas palavras queriam dizer, e o anjo continuou:
- Não tenhas medo, Deus enviou-me para te dizer que vais ter um filho, a quem darás o nome de Jesus. Ele será rei, e o seu reino não terá fim.
- Como pode ser, se eu ainda não sou casada?
- É obra de Deus, que pode tudo. O Espírito Santo descerá sobre ti, e o teu filho irá chamar-se Filho de Deus.
Maria disse então:
- Sou a escrava do Senhor, faça-se como é a Sua vontade.
José era um homem bom, mas quando soube que Maria estava à espera de bebé e ele ainda não era marido dela, achou que já não devia casar-se.
Naquela noite, ele teve um sonho. Apareceu-lhe um anjo que lhe disse:
- José, filho de David, não deixes de aceitar Maria. O filho que ela traz é o Filho de Deus. Chamar-se-á Jesus porque vai salvar o povo dos seus pecados.
No dia seguinte, José lembrou-se do que o anjo dissera e casou com Maria, prometendo tratar muito bem dela e do filho que ia nascer.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2007

Era uma vez, lá na Judeia, um rei.
Feio bicho, de resto:
Uma cara de burro sem cabresto
E duas grandes tranças.
A gente olhava, reparava e via
Que naquela figura não havia
Olhos de quem gosta de crianças.

E, na verdade, assim acontecia.
Porque um dia,
O malvado,
Só por ter o poder de quem é rei
Por não ter coração,
Sem mais nem menos,
Mandou matar quantos eram pequenos
Nas cidades e aldeias da nação.

Mas, por acaso ou milagre, aconteceu
Que, num burrinho pela areia fora,
Fugiu
Daquelas mãos de sangue um pequenito
Que o vivo sol da vida acarinhou;
E bastou
Esse palmo de sonho
Para encher este mundo de alegria;
Para crescer, ser Deus;
E meter no inferno o tal das tranças,
Só porque ele não gostava de crianças.



Miguel Torga

terça-feira, 4 de dezembro de 2007

Chove. É dia de Natal

Chove. É dia de Natal.
Lá para o Norte é melhor:
Há a neve que faz mal,
E o frio que ainda é pior.

E toda a gente é contente
Porque é dia de o ficar.
Chove no Natal presente.
Antes isso que nevar.


Pois apesar de ser esse
O Natal da convenção,
Quando o corpo me arrefece
Tenho o frio e Natal não.

Deixo sentir a quem quadra
E o Natal a quem o fez,
Pois se escrevo ainda outra quadra
Fico gelado dos pés.

Fernando Pessoa

segunda-feira, 3 de dezembro de 2007

Provérbios de Natal

Quem ao Natal não chegar já pouco vai durar.

Quem vai ao S. Silvestre vai num ano, vem no outro e não se despe.

Ande o frio por onde andar no Natal vem cá parar.

Natal a assoalhar e Páscoa ao luar.


Dezembro quer lenha no lar e Pichel a andar.

É Natal, é Natal filhós com vinho não fazem mal.

Pelo Natal se houver luar senta-te ao lar. Mas se houver escuro semeia outeiros e tudo.

Natal é dar um beijo pela manhã ao pai e à mãe. Natal é dar amor a quem o quer e não o tem.

Até ao fim do Natal crescem os dias num saltinho de pardal.

No Natal semeia o alhal mas se o quiseres cabeçudo fá-lo no Entrudo.

Quem colhe azeitona antes do Natal deixa o azeite no olival.

Caindo o Natal à segunda-feira tem o lavrador de alugar a eira.

Mal vai Portugal se não há três cheias antes do Natal. Natal à sexta-feira por onde puderes semeia.

domingo, 2 de dezembro de 2007

Ao menino Jesus

Hoje é dia de Natal
Mas o menino Jesus
Nem sequer tem uma cama,
Dorme na palha onde o pus.


Recebi cinco brinquedos
Mais um casaco comprido.
Pobre menino Jesus,
Faz anos e está despido.


Comi bacalhau e bolos,
Peru, pinhões e pudim.
Só ele não comeu nada
Do que me deram a mim.


Os reis de longe trazem
Tesouros, incenso e mirra.
Se me dessem tais presentes,
Eu cá fazia uma birra.


Às escondidas de todos
Vou pegar-lhe pela mão
E sentá-lo no meu colo
Para ver televisão.


Luísa Ducla Soares

sábado, 1 de dezembro de 2007

A menina dos fósforos

Era uma vez, numa grande cidade, uma linda menina muito pobre, que ganhava a vida a vender caixas de fósforos, para ajudar o pai.
Numa noite, véspera de Natal, com a neve a cair em abundância, a pequena vendedora vagueava pelas ruas, afundando nela os seus pezinhos. Nas mãos geladas, levava as caixas de fósforos. Dentro das casas aquecidas, as famílias cantavam, junto das lareiras e das árvores de Natal, repletas de presentes. O cheiro dos assados quentinhos espalhava-se pelas ruas.
Ninguém queria comprar os seus fósforos. Muito cansada, sentou-se num canto e lembrou-se das bonitas fábulas que a sua doce mãezinha lhe contava, enquanto a embalava nos seus braços quentes.
O frio aumentava. Com lágrimas nos olhos, ela olhou para as caixinhas de fósforos: se acendesse apenas um para aquecer as mãos, talvez o pai não notasse. Pegou num fósforo e riscou. Uma chamazinha quente e luminosa logo brilhou. Para ela, parecia o calor de um grande fogão ali perto. Pegou noutro fósforo e riscou novamente. Diante dela surgiu uma mesa posta com porcelanas e um delicioso assado, recheado com ameixas e maçãs, exalando um cheiro delicioso. Quando estendeu a mão... a chama desapareceu.
Só a neve caia diante dela. Acendeu o terceiro fósforo. Agora parecia estar sentada, junto a uma enorme árvore de Natal, onde milhares de bolas coloridas e estrelinhas cintilavam. De repente, a chama tremeu, o fósforo apagou-se... e tudo desapareceu. A menina riscou mais um fósforo e lembrou-se da sua avó, que sempre a tratara com ternura. Mas o fósforo apagou-se e a imagem desfez-se.
O frio aumentava. A menina, então, acendeu todos os fósforos que ainda restavam e à sua volta tudo brilhou. Os seus olhos brilharam quando viu dois braços na sua direcção. Quando acordou, estava numa cama bem quentinha. Todos olhavam para ela com muito amor. Agora tinha uma nova família que a adoptara.
Naquele lar, o amor tinha acendido uma nova chama, que nunca mais se iria apagar.

Hans Christian Andersen

quinta-feira, 29 de novembro de 2007

A princesa e a ervilha

Era uma vez um príncipe que queria desposar uma princesa, mas uma princesa verdadeira. Assim, deu a volta ao mundo para encontrar uma, e, na realidade, não faltavam princesas; o que ele nunca podia assegurar era que se tratasse de verdadeiras princesas; havia sempre algo nelas que lhe parecia suspeito. Por consequência, regressou, muito deprimido, por não ter encontrado aquilo que desejava.
Uma noite, fazia um tempo horrível, os raios entrecruzavam-se, o trovão ribombava, chovia a cântaros - era pavoroso. Alguém bateu à porta do palácio e o velho rei apressou-se a mandar abrir.
Era uma princesa, mas, santo Deus, em que estado a chuva e a tempestade a haviam posto! A água escorria dos seus cabelos e das suas roupas, entrava-lhe pela biqueira dos sapatos e voltava a sair pelos tacões. Todavia, afirmou ser uma verdadeira princesa.
- Isso é o que iremos ver!- pensou a velha rainha. Depois, sem dizer nada, entrou no quarto de dormir, tirou os lençóis e os colchões e colocou no fundo da cama uma ervilha. Em seguida, pegou em vinte colchões e estendeu-os sobre a ervilha e sobre os quais empilhou ainda vinte cobertas.
Era a cama destinada à princesa. No dia seguinte, pela manhã, perguntou-lhe como passara ela a noite.
- Muito mal!- respondeu. – Mal consegui fechar os olhos toda a noite! Deus sabe o que tinha na cama; era algo de duro que me pôs a pele toda roxa. Que suplício!
A esta resposta, reconheceram que se tratava de uma verdadeira princesa, pois sentira uma ervilha através de vinte colchões e de vinte cobertas. Que mulher, a não ser uma princesa, poderia ter uma pele de tal modo delicada?
O príncipe, completamente convencido de que esta era uma verdadeira princesa, tomou-a como esposa e a ervilha foi posta no museu, onde deve encontrar-se ainda, a não ser que um coleccionador a haja roubada.
E aqui está uma história tão verdadeira como a princesa!

Hans Christian Andersen, Contos imortais, Publ. Europa-América

quarta-feira, 28 de novembro de 2007

Conto de Natal

Dezembro está a chegar e com ele uma festa muita importante do nosso calendário.
Sobre o Natal muito sem tem escrito. O Clube de Leitura vai dedicar o mês de Dezembro à Literatura relacionada com o Natal.
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Ficamos à espera!

terça-feira, 27 de novembro de 2007

O Leão e os Três Bois

Havia três bois que costumavam pastar sempre juntos.
Um Leão emboscou-se na esperança de os caçar, mas estava com receio de os atacar enquanto estivessem unidos.
Usando a sua astúcia, conseguiu que lutassem entre si, separando-os. Então, atacou-os sem medo e devorou-os um a um.

Moral da história:
A união faz a força.

Esopo






segunda-feira, 26 de novembro de 2007

Carta


Meu querido amigo Gato Amarelo,

Ainda que um pouco tarde, venho dar-te as minhas notícias, pedir-te perdão da maneira como te deixei. Deste-me o melhor conselho que me podiam dar: vir para a cidade. Passei maus bocados, é certo, mas agora sou feliz. Moro nos arredores de uma linda cidade e tenho um jardim só para mim. Às vezes empresto-o a Clara, a minha pequena dona. Como a morada vai no remetente, espero que um dia me venhas visitar. Hei-de então contar-te uma história de foguetões... Fica sabendo que este teu amigo já foi astronauta, actor de teatro, modelo – uma personagem, enfim! Hoje, porém sou um pacato cidadão.
Uma novidade: tornei-me desportista como tu. A minha dona ofereceu-me um ratinho de corda e brinco com ele. É um óptimo exercício podes crer. Queres que te mande um de presente? Quanto a caçar ratos verdadeiros, é um assunto arrumado: sou e serei sempre um gato pacifista!
E fico por aqui. Clara, a minha dona, manda-te cumprimentos.

Eu, um cordial aperto de pata,
Estrelinha

Madalena Gomes, Estrelinha, O Gato Astronauta, Ed. ASA

domingo, 25 de novembro de 2007

A Cadeira carunchosa

Era uma vez um ferro-velho. Num canto da loja, coberta de pó e de teias de aranha, vivia uma cadeira carunchosa. Era a mais velha, a mais desprezada das cadeiras do ferro-velho. As outras troçavam dela:
- A “Carunchosa” é a vergonha das cadeiras- dizia a cadeira “Dourada”- no lume é que ela estava bem.
- Ou então no lixo- atalhou a sua prima, a de espaldar, por alcunha a “Tesa”. As cadeiras rústicas e as de estilo americano riram às gargalhadas. A “Vermelha”, que tinha partido uma perna, de tanto rir até caiu ao chão. Só as cadeiras tristes, da sala de espera, não acharam graça. Estavam fartas da “Dourada” e da “Tesa”, das suas conversas mesquinhas.
A vida no ferro-velho era monótona. Aquelas cadeiras, agora desirmanadas, lembravam-se de melhores dias. Todos tinham tido uma família. Recordavam a carícia do pano de pó, o peso ou a leveza dos seus donos- às vezes a sua brutalidade. À “Vermelha” por exemplo faltava uma perna. Outras mostravam arranhões, o assento rasgado. Mas apesar disso, da brutalidade com que às vezes eram tratadas, suspiravam por ser compradas de novo. A “Carunchosa” é que não. Estava tão velha, tão cansada! Ela que atravessara dois séculos, que servira várias gerações, só pedia uma coisa: que a deixassem em paz, era por isso que se escondia atrás das outras, quando algum cliente entrava na loja.
Ora, num dia em que as cadeiras conversavam sobre a sua triste vida, o dono do ferro-velho disse para o empregado:
- Logo mando cá um comprador. Mostre-lhe as cadeiras que temos.
A “Dourada” e a “Tesa” empertigaram-se.
- Serei eu a escolhida- disse a “Dourada”- nenhuma de vocês tem a minha graça, a minha elegância...
- Perdão minha prima- ripostou a “Tesa”- pode ser muito engraçada mas não tem a minha distinção.
As outras cadeiras embora se sentissem inferiores, também tinham esperança. Se o cliente fosse de recursos modestos, talvez as preferisse... Até mesmo a “Vermelha”, a quem chamavam a “Manca”, estava entusiasmada. Com uma perna nova podia ainda servir.
Só a “Carunchosa”, indiferente a tudo, se mantinha quieta, no seu canto.
O cliente chegou à tardinha. O empregado mostrou-lhe as cadeiras uma por uma, gabando as suas qualidades. Mas o homem abanava a cabeça.
- Não temos não senhor... Ah! Só se for aquela!- disse, de repente, apontando para a “Carunchosa”.
- Deixe-me vê-la bem.
O empregado pegou na “Carunchosa”, limpou-a e pô-la no meio da casa, onde a luz era mais viva. As outras cadeiras, sustendo o riso, aguardavam. Será que o comprador iria preferir aquela cadeira tão feia, tão carunchosa?...
Mas o cliente parecia não ter pressa. Olhava, encantado para a cadeira, em que descobria uma preciosidade. Por fim, disse:
- Quanto quer por ela? Compro-a!
E pagou sem regatear, uma boa quantia pela “Carunchosa”.
Que lição para as outras cadeiras! Naquela noite, de envergonhadas, nem conseguiram dormir.

Madalena Gomes, Contos para a Catarina

sábado, 24 de novembro de 2007

NEM SÓ DE PÃO VIVE O HOMEM

Dantes, cresciam nos beirais umas ervinhas chamadas arroz de telhado… – recordava o senhor Jacinto, com tristeza. – Mas agora os únicos arbustos que crescem nos telhados são as antenas da televisão!
– Pai – lembrou um dia a Rosinha –, e se nós comprássemos uns vasos para a varanda e semeássemos as flores? Sempre era melhor do que nada.
A ideia da Rosinha encheu de alegria nova o coração da família.
Logo ali ficou assente que haviam de encomendar vasinhos de barro, muito frescos e garridos, para os enfileirar na varanda voltada para o sol; depois, escreviam a uns primos da aldeia a mandar vir terra e sementes…
Assim fizeram. Passou o Inverno, e pela Primavera meia dúzia de florinhas envergonhadas deitaram a cabeça fora de terra.
Foi uma alegria na casa. Até parecia que tinha nascido um bebé na família.
A toda a hora andavam de roda das florinhas a dar-lhes de beber, a protegê-las do vento áspero ou do sol de Março que as pudesse crestar.
Mas o senhor Jacinto era daqueles que, quando encontram a felicidade, não descansam enquanto não pegam felicidade aos outros.
– Sabes uma coisa? – disse ele uma tarde à mulher. – Tenho andado a pensar que é uma pena haver só a nossa varanda florida em todo o bairro. Porque não havemos de entusiasmar os vizinhos a fazer o mesmo que nós fizemos?
– Isso era bom, mas como? – perguntou a dona Hortense, já interessada.
– Agora está muito em moda a publicidade. Juntamente com as carcaças ou os cacetes (o senhor Jacinto era padeiro) eu oferecia um brinde aos fregueses: um pacotinho de sementes! Assim, eles, com o desejo do brinde, compravam mais pão. Eu ficava a ganhar e eles também; porque cada qual podia ter um jardim pequenino em sua casa.
– Que lindo! Pão e flores! É quase o milagre da Rainha Santa Isabel – exclamou a Rosinha.
E a Margarida, que tinha muito jeito para desenho, foi logo fazer um cartaz para o pai colocar na montra da padaria.
Dizia assim: NEM SÓ DE PÃO VIVE O HOMEM. COMPRE UM PÃO E GANHE UM JARDIM FLORIDO.

Maria Isabel Mendonça Soares, Contos no Jardim

quinta-feira, 22 de novembro de 2007

A Abelha Rainha


Parte II


Vais, em seguida, saber o que aconteceu aos três jovens, na sua aventurosa viagem.

Depois, entraram em todas as salas até chegarem a uma porta com três cadeados, mas no meio da porta havia um ralo e eles puderam espreitar para dentro da sala.
Viram um pequeno velhote grisalho, sentado a uma mesa. Chamaram por ele uma ou duas vezes, mas ele não ouviu. Contudo, ao chamarem pela terceira vez, ele levantou-se e foi ter com eles.
Ela nada disse e limitou-se a levá-los para uma mesa coberta com tudo o que era bom. Depois de eles terem comido e bebido, indicou um quarto a cada um.
Na manhã seguinte, foi ter com o mais velho e levou-o para uma mesa de mármore onde estavam três placas com a indicação de como o castelo podia ser desencantado.
A primeira placa dizia: “ Na floresta, sob um musgo, estão mil pérolas que pertencem à filha do rei. Devem ser todas encontradas. Se, ao pôr do Sol, faltar alguma, aquele que as tiver ido procurar será transformado em mármore.”
O irmão mais velho saiu e passou todo o dia a procurar pérolas, mas quando caiu a noite, ainda não tinha encontrado a primeira centena; portanto foi transformado em pedra, como a placa previra.
No dia seguinte, o segundo irmão iniciou a mesma tarefa, mas não se saiu melhor do que o primeiro, pois só conseguiu encontrar a segunda centena de pérolas e, portanto, foi também transformado em pedra.
Finalmente, chegou a vez do pequeno anão. Procurou no musgo, mas era tão difícil encontrar as pérolas e era uma tarefa tão aborrecida! Sentou-se numa pedra e começou a chorar. E, enquanto ele ali estava sentado, o rei das formigas (a quem salvara a vida) foi ajudá-lo, com cinco mil formigas, e não tardou que encontrassem todas as pérolas e amontoassem.
A segunda placa dizia: “A chave do quarto da princesa tem de ser tirada do lago”. Quando o anão chegou à margem do lago, viu os dois patos que tinha salvo a vida ali a nadar. Eles mergulharam e depressa tiraram a chave do fundo.
A terceira tarefa era a mais difícil. Era escolher a mais nova e melhor das três filhas do rei. Ora, todas elas eram belas e exactamente iguais, mas foi-lhe dito que a mais velha tinha comido um torrão de açúcar, a outra melaço doce e a mais nova uma colher de mel e ele tinha de adivinhar qual delas tinha comido o mel.
Então, veio a rainha das abelhas, que tinha sido salva do fogo pelo anãozinho, e provou os lábios das três. Finalmente, passou nos lábios da que tinha comido o mel e, assim, o anão ficou a saber qual era a mais nova.
Assim, o feitiço foi quebrado e todos aqueles que tinham sido transformados em pedra acordaram e voltaram à sua forma real. E o anão casou com a mais nova e a melhor das princesas.


Contos de Grimm

quarta-feira, 21 de novembro de 2007

A Abelha Rainha

Parte I
Era uma vez um rei que tinha três filhos.
Um dia, os dois mais velhos decidiram correr mundo para fazer fortuna. Mas não tardaram a cair numa forma de vida insensata e perdulária, de modo que não podiam regressar a casa. Então, o mais novo, que era um anãozinho insignificante, foi à procura dos seus irmãos, mas quando os encontrou eles riram-se por ele, que era tão jovem e tolo, querer correr mundo, quando eles, que eram muito mais espertos, não tinham conseguido. No entanto, partiram juntos para a sua viagem e, finalmente, chegaram a um formigueiro. Os dois irmãos mais velhos queriam destruí-lo para ver as pobres formigas assustadas a correr com os seus ovos. Mas o anãozinho disse:
-Deixem as pobrezinhas divertirem-se. Não deixarei que as perturbem.
E, assim, lá continuaram a andar e chegaram a um lago, onde nadavam muitos patos. Os dois irmãos queriam apanhar dois deles e assá-los. Mas o anão disse:
-Deixem os pobrezinhos divertirem-se. Não os matarão.
A seguir, depararam com uma colmeia numa árvore oca, e esta tinha tanto mel que escorria pelo tronco. Os dois irmãos queriam acender uma fogueira debaixo da árvore para matarem as abelhas e ficarem com o mel, mas o anão deteve-os e disse:
-Deixem os lindos insectos divertirem-se. Não posso deixar que os queimem.
Finalmente, os três irmãos chegaram a um castelo e, ao passarem pelo estábulo, viram lá belos cavalos de mármore mas não se via nenhum homem.

Contos de Grimm (adaptado)

terça-feira, 20 de novembro de 2007

Sonhos da Menina

A flor com que a menina sonha
está no sonho?
ou na fronha?

Sonho
risonho:

O vento sozinho
no seu carrinho.

De que tamanho
seria o rebanho?

A vizinha
apanha
a sombrinha
de teia de aranha . . .

Na lua há um ninho
de passarinho.

A lua com que a menina sonha
é o linho do sonho
ou a lua da fronha?

Cecília Meireles

segunda-feira, 19 de novembro de 2007

O Rei Vai Nu

Era uma vez um rei muito vaidoso e que gostava de andar muito bem arranjado. Um dia, vieram ter com ele dois aldabrões que lhe falaram assim:
- Majestade, sabemos que gosta de andar sempre muito bem vestido - bem vestido como ninguém; e bem o mereceis! Descobrimos um tecido muito belo e de tal qualidade que os tolos não são capazes de o ver. Com um fato assim Vossa Majestade poderá distinguir as pessoas inteligentes dos tolos, parvos e estúpidos que não servirão para a vossa corte.
- Oh! Mas é uma descoberta espantosa! - respondeu o rei. Tragam já esse tecido e façam-me o fato; quero ver as qualidades das pessoas que tenho ao meu serviço.
Os dois aldrabões tiraram as medidas e, daí a umas semanas, apresentaram-se ao rei dizendo:
- Aqui está o fato de Vossa Majestade.
O rei não via nada, mas como não queria passar por parvo, respondeu:
- Oh! Como é belo!
Então os dois aldrabões fizeram de conta qua estavam a vestir o fato, com todos os gestos necessários e gestos necessários e exclamações elogiosas:
- Ficais tão elegante! Todos vos invejarão!
A notícia correu toda a cidade: o rei tinha um fato que só os inteligentes eram capazes de ver. Um dia o rei resolveu sair para se mostrar ao povo. Toda a gente admirava a vestimenta, porque ninguém queria passar por estúpido, até que, a certa altura, uma criança, em toda a sua inocência, gritou:
- Olha, olha! O rei vai nu!
Foi um espanto! Gargalhada geral. Só então o rei compreendeu que fora enganado; envergonhado e arrependido da sua vaidade, correu a esconder-se no palácio.

domingo, 18 de novembro de 2007

Beatriz e o Plátano

Certo dia constou que as autoridades tinham resolvido deitar o plátano abaixo. Achavam elas que o novo edifício dos Correios ficaria mais bonito se não houvesse nada a ensombrá-lo. Iria ter a fachada pintada de duas cores, caixilhos de alumínio e, ainda, um painel de azulejos por cima da entrada. Ora o que era uma velha árvore comparada com tal modernidade e esplendor? Assim pensavam as autoridades que se preparavam para ficar célebres na história da cidade, e uma das diligências mais importantes era, na ideia deles, acabar com as «velharias inúteis». Era assim que classificavam as árvores com centenas de anos de idade.
Beatriz, quando soube da notícia, ficou alarmada. Como era possível que alguém se atrevesse a deitar abaixo o plátano, o seu velho amigo, o mais lindo plátano em toda a cidade e sempre tão apreciado que até servira para dar nome à rua onde crescera? E não faria tão boa figura em frente do novo edifício como a que tinha feito em frente do desaparecido? Não continuaria também a dar hospedagem aos pássaros e abrigo às pessoas nos dias de chuva ou de sol?
Que mais podia um edifício novo desejar do que ter como enfeite uma árvore daquelas, conhecedora de tudo o que, durante alguns séculos, acontecera na Rua do Plátano? E talvez até soubesse falar, é bem possível, e então talvez pudesse contar ao edifício novo tudo aquilo a que assistira nos tempos passados.
Foi em tudo isto que Beatriz pensou. Falou aos pais e aos professores, mas ninguém lhe indicava uma solução para o caso. Todos diziam:
– Quem manda na cidade são as autoridades.
Finalmente, Beatriz resolveu escrever uma carta a essas autoridades que, no seu entender, estavam prestes a cometer uma falta irreparável pois, mesmo se um dia se viessem a arrepender de ter feito perder à cidade o plátano mais lindo que lá havia e se resolvessem a plantar outro, quantos e quantos anos não levaria ele a fazer-se uma árvore que se visse! Foi o que explicou na carta e, no fim, rematou:

«As senhoras autoridades decerto vão achar que eu tenho razão e, por isso, desistirão de deitar abaixo o plátano da Rua do Plátano.
Hão-de ver que ele vai fazer o mesmo vistão em frente do novo edifício dos Correios que fazia em frente do velho.
Muitos cumprimentos da Beatriz.»

Ilse Losa, Beatriz e o Plátano

terça-feira, 13 de novembro de 2007

Os ratos reunidos em conselho

Há muito tempo, os ratos reuniram em conselho para decidir a maneira de se verem livres do gato que andava permanentemente à caça deles.
O gato era muito esperto, deslocava-se furtivamente, sem fazer barulho e, quando atacava, era mais rápido e mortífero do que um relâmpago.
Vários ratos expuseram as suas ideias, e a reunião prolongou-se pela noite fora. Nenhum dos planos parecia resultar, até que um rato muito novo pediu a palavra.
- Proponho - disse ele - que se pendure um guizo ao pescoço do gato. E, assim, cada vez que ele se mexer, o guizo toca e avisa-nos do perigo. Ouvimos o som e temos tempo de fugir.
Os outros ratos acharam que era uma óptima ideia e foi uma chiadeira de entusiasmo e aplausos. Então, um velho rato, que tinha ficado calado durante todo o tempo, levantou-se e disse com gravidade:
- A tua proposta é excelente e tenho a certeza de que vai dar resultado. Mas pergunto uma coisa.

Calou-se.
- O que é? Faça a pergunta- chiaram os outros ratos.
- Quem- disse o velho rato- vai pendurar o guizo ao pescoço do gato?
Desta vez, nenhum dos ratos teve mais nada a dizer.

É mais fácil ter ideias do que realizá-las.

Versão de Ricardo Alberty, Fábulas de Esopo

segunda-feira, 12 de novembro de 2007

Escarlate

Eram redondos e vivos, muito vivos e curiosos os olhos daquele peixe que tinha apenas acabado de nascer e já queria viajar e já dançava nas ondas. De tal maneira ondulava e era vermelho que parecia uma labareda, muito embora as labaredas não brinquem no mar.
Escarlate lhe chamavam os pais, as algas, os limos, as rochas, a areia e as pedrinhas lisas que rolavam e se gastavam a rolar.
Escarlate viu ao longe os prédios cheios de janelas, papagaios de papel que esvoaçavam no espaço e crianças que jogavam e corriam. Olhou tudo aquilo e gostou. E acabou por se lançar na primeira vaga que o arrastou até à costa sem que tivesse tempo de voltar para trás. Agora as ondas vinham e recuavam e o peixe nadava apenas um metro e voltava a ser arremessado contra a praia. Era impossível atravessar as vagas e Escarlate sentia fugirem-lhe as forças enquanto os seus olhos redondos e curiosos iam ficando menores, cada vez menores, como se o cansaço os quisesse fechar.
De repente, a mão de um garoto grande e queimado pelo sol desceu sobre ele e Escarlate foi levantado do remoinho de espumas em dois segundos.
- Pobre peixe vermelho - disse o garoto - vou ver se te posso ajudar. E lançou Escarlate o mais longe que pôde. Mas ele voltou na crista de uma vaga, como se fosse um barquinho de cortiça.
Então o garoto mergulhou, nadou vigorosamente e foi empurrando Escarlate com a concha da mão. Zzz!- murmurou o peixe, o que em linguagem de gente quer dizer: Como se chama você? E o nadador, que não tinha tempo para conversas, respondeu que se chamava Zé, que é o nome mais curto que há.
Zé levou o peixe para lá das vagas que se quebravam, deixou-o em segurança e voltou para a praia, enquanto Escarlate, rodeado dos amigos grandes e pequenos, contava a sua aventura:
-Foi um jovem que me salvou! Foi um jovem que me salvou!
E o mar repetia:
- Um jovem salvou Escarlate! Um jovem salvou Escarlate!
Os peixes batiam as caudas, as algas acenavam, os limos bailavam e as pedrinhas rolavam mais depressa na areia. E até a cidade ao longe, toda enfeitada de sol, parecia ainda mais colorida e alegre.
- Os jovens agora também salvam os peixes - diziam todos - o mundo está melhorando, vamos ver em breve os homens de mãos dadas, não é verdade, Escarlate?
Escarlate dizia que sim e, de tão comovido que estava, piscava os olhos redondos e vivos e fazia piruetas de palhaço por entre as estrelas-do-mar.

Sidónio Muralha, Sete Cavalos na Berlinda, Plátano Editora

domingo, 11 de novembro de 2007

Lenda de São Martinho

São Martinho foi na mocidade soldado das legiões do imperador Juliano. Num certo dia de borrasca, em pleno Inverno, sob o vendaval e a neve, equipado e armado, montado a cavalo, embuçado até aos olhos na capa militar, São Martinho viu, às portas de Amiens, um mendigo andrajoso e seminu, tiritando de frio, estendendo suplicantemente para ele a sua pobre mão ossuda, ganchona e congelada.
O Santo sofreou o cavalo, acalentou com enternecida caridade a mão desse abandonado e, em seguida, desembuçando-se, tomou da espada, cortou ao meio a sua capa de agasalho, deu metade dela a esse miserável peregrino e, envolto na outra metade, sacudiu a rédea e prosseguiu através da tormenta, de peito ao vento e à neve,
Subitamente, porém, no caminho do soldado, a tempestade desfez-se, amainou o tufão e a geada, o céu descobriu instantaneamente, como por encanto, a sua inefável profundidade límpida e azul, e um sol de Estio acariciante e resplandecente inundou a terra de alegria e vestiu de luz e calor, numa apoteose da natureza, esse cavaleiro de caridade evangélica.
Deus, reconhecido, para que não se apagasse da memória dos homens a notícia deste acto de bondade, praticado por um dos seus eleitos, dispôs que em cada ano, na mesma época em que São Martinho se desapossou da metade da sua capa, por alguns dias de gala se interrompesse o Inverno, cessasse o frio, sorrisse o céu e a terra de um miraculoso contentamento.


Ramalho Ortigão, Verão de São Martinho