domingo, 16 de dezembro de 2007

O Primeiro Natal do Pardalito

Aqui há coisa de três semanas, um pardal do Rossio, daqueles que escolheram para poiso e morada os ramos das árvores que circundam a dita praça, começou assim a história que vamos contar:
— Companheiros pardais, pardalitos e pardalões, escutem todos, a notícia é importante.
Juntou-se a pardalada. Quem ali passe todas as tardes, à hora da saída dos empregos, não deve estranhar o arruído que vem das árvores despidas de folha, mas cheias, cheiinhas de passarinhos tagarelas. As pessoas andam na sua vida muito apressadas, e nem sequer dão conta da chilreada doida dos pardais:
“Chega-te para lá! Aí sou eu”
“Olha o pardalão a querer tomar-me o lugar…”.
“Ai que ainda te dou uma bicada…”.
“Não me provoques!”.
“Toma que é para saberes”.
“Deixa-me em paz”.
Mas voltemos à nossa história.
Oiçamos o que o pardal tem para dizer:
— Peço silêncio, se não calo-me — piava ele, tentando impor a ordem à assembleia.
Demorou o seu tempo.
Os pardais são uns espalhafatosos e uns gralhadores incorrigíveis.
— A notícia que vos trago importa a todos. Há bocadinho, estava eu poisado num ramo baixo, e ouvi uma conversa entre um cauteleiro e um engraxador. Sabem do que estavam a falar?
— De futebol — arriscou um.
— Nada disso. Estavam a falar da Lotaria do Natal, imaginem! Portanto, o Natal está à porta, meus amigos. Espero que saibam o que isto significa…
Os pardais mais jovens não sabiam, mas calcularam que devia ser coisa grave, porque os pardais velhos, mesmo os mais gaiteiros e risonhos, ficaram, subitamente, de bico caído. As expressões eram de alarme e desalento:
— Temos de mudar de vida.
— Que desconforto!
— Deviam ter-nos avisado.
— O tempo não está para grandes voos.
E cada qual debandou para o seu ramo.
Neste ponto da história, parece-nos indispensável ouvir a fala de um avô pardal para o seu neto que, tal como vocês, amigos leitores, não percebera patavina do sucedido.
— Na quadra do Natal, que é uma grande festa dos homens — contava ele — multiplicam-se e crescem as luminárias por toda a parte. Nesta praça, então nem queiras saber! Fica tudo cheio de luzes e luzinhas de muitas cores, amarelas, azuis, vermelhas, verdes, que nos põem tontos. Onde os homens encontram um sítio para pendurar uma daquelas pêras de vidro que deita luz, penduram.
— Deve ser bonito — observou o neto.
— Bonito talvez seja, mas não para nós. Aparecem fios por toda a parte e, nos ramos das nossas árvores, estendem tantos, com as tais pêras penduradas, que ninguém se entende. Há dois anos, aproximei-me de uma dessas pêras, que se tinha partido, e apanhei um arrepio pelo corpo todo que julguei que me ficava de vez!
— Então para onde vão os pardais passar o Natal? — perguntou o pardalito, atarantado.
— Saltinho aqui, saltinho acolá, alguns escondem-se numas palmeiras, lá para cima, num sítio que os da cidade chamam Avenida. Outros conseguem chegar a um jardim, que me dizem ser muito tranquilo e saudável, um tal Jardim Botânico ou coisa parecida.
— E nós, avô?
— Nós ficamos. Podíamos ir para um telhado próximo, se não andassem por lá os gatos que têm olhos mais perigosos do que todas as luminárias juntas. Olha, naturalmente, vamos para um sítio sossegado que eu conheço, num buraco daquele edifício, ali, no cimo da praça. É um bocado desabrigado e pouco cómodo, mas vais poder dizer, daqui em diante, que dormiste no Teatro Nacional…
Assim que chegaram os electricistas com as escadas, os cabos e os fios, a pardalada sumiu-se…Numa destas noites, o pardalito deixou o avô a dormir com a cabeça debaixo da asa, e foi dar uma voltinha pelos arredores do seu novo poiso. O Rossio silencioso e exuberantemente iluminado pareceu-lhe um jardim de sonho.
— Tanta luz de tanta cor! — exclamou.
Nesse momento, um avião sobrevoava a cidade, em direcção ao aeroporto. No escuro do céu só se distinguia as luzes vermelhas da cauda.
— Olha, lá vão duas luzes a fugir…
E dispunha-se a voar atrás delas, se o avô não tivesse acordado, entretanto.
— Para onde ias? — perguntou-lhe ele.
O pardalito explicou.
Comentário do velho pardal:
— Que patetice! Ainda tens muito que aprender, pequeno, até te transformares num pardalão sabido!
É o que nós também achamos, ao cabo desta história.


António Torrado

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