quarta-feira, 30 de abril de 2008

A borboleta

A borboleta queria uma noiva e, naturalmente, pretendia a mais bonita das florzinhas. Olhou para cada uma delas. Estavam silenciosas e muito discretas no seu caule, conforme convém a jovens donzelas casadoiras. Mas, como eram muitas, era muito difícil escolher.
Então a borboleta voou para junto da menina malmequer. Os franceses descobriram que esta flor possui o dom da profecia. Os namorados arrancam-lhe as pétalas uma a uma, fazendo perguntas sobre o parceiro: «Gosta de mim?», «Pouco?», «Muito?», «Nada?». Cada pessoa faz as perguntas na sua própria língua. A borboleta também a interrogou, mas em vez de lhe arrancar as pétalas, beijou-as uma a uma, pois acreditava que a gentileza dá melhores resultados:
- Doce malmequer! És a mulher mais inteligente de todas as flores. Diz-me, devo escolher esta ou aquela flor? Qual delas devo escolher para noiva? Assim que me responderes, voarei na sua direcção e pedi-la-ei em casamento.
Mas a menina malmequer não disse uma palavra. Ficou aborrecida porque lhe tinham chamado «mulher», sendo ela solteira e, ainda por cima, muito jovem. A borboleta fez a pergunta uma e outra vez mas, como não obteve resposta, acabou por desistir e voou para longe disposta a encontrar uma noiva sem a ajuda de ninguém.
Estava-se no começo da Primavera; as campainhas brancas e os açafrões floresciam por todo o lado.
- São muito bonitas, – disse a borboleta – mas muito jovens.
Preferia meninas mais velhas, como acontece com a maioria dos rapazes mais novos. Voou para junto das anémonas, mas achou-as um pouco secas demais. As violetas eram demasiado românticas e as túlipas demasiado alegres. Os lírios eram muito plebeus, as flores de tília eram muito pequenas e, além disso, tinham muitas irmãs. É certo que as flores de macieira pareciam rosas, mas floresciam num dia e caíam no seguinte, levadas pelo vento. Seria um casamento demasiado breve.
A flor que mais lhe agradou foi a da ervilha de cheiro. Era vermelha e branca, fina e delicada; pertencia à categoria das raparigas caseiras que são bonitas e, ao mesmo tempo, sabem cozinhar. Ia pedi-la em casamento quando viu a seu lado uma vagem de ervilha com uma flor murcha na ponta.
- Quem é esta? – perguntou.
- É minha irmã – respondeu a ervilha de cheiro.
- Oh! É nisso que te transformarás!
Assustada com a ideia, a borboleta voou para longe.
A madressilva florescia pelas encostas. Havia muitas, com faces redondas e pele amarela. Não gostou da espécie. Sim, mas afinal de contas, de quem é que ela gostava?
Boa pergunta!
A Primavera passou e o Verão também. Chegou o Outono e a borboleta estava longe de se decidir. As flores estavam agora mais bonitas, usando roupagens coloridas, mas de que lhes serviam? Faltava-lhes a frescura e o aroma da juventude e é precisamente por essa fragância que o coração anseia quando se envelhece. As dálias não possuem qualquer aroma em particular e, por isso, a borboleta foi ver a hortelã.
- Na verdade não tem flores, mas toda ela é uma flor, perfumada dos pés à cabeça, com um doce aroma em cada folha. Sim, é ela que desejo.
E, finalmente a borboleta pediu-a em casamento.
Porém, a hortelã ficou rígida e calada. Por fim, respondeu:
- Seremos amigos, se quiseres, mas nada mais. Sou velha e tu também o és. Podemos viver um para o outro, mas casar, não. Não façamos figura de tolos na nossa idade.
E foi assim que a borboleta ficou solteira. Tinha hesitado demais, o que não é sensato. A borboleta «ficou para tia», como se costuma dizer.
O Outono ia já avançado e o vento frio vergava os troncos trémulos dos pobres salgueiros, fazendo-os estalar. Quando o tempo está assim, não é nada agradável voar em traje de passeio. Mas a borboleta não voava pelos campos. Por mero acaso tinha entrado numa sala que tinha a lareira acesa. O ar estava tão quente que parecia Verão. Por isso, conseguiu manter-se viva.
- Manter-me viva apenas, não chega – pensava a borboleta. – Faz-me falta o brilho do Sol, a liberdade e uma florzinha para amar.
Então voou contra o vidro da janela. As pessoas viram-na, admiraram-na, espetaram-lhe uma agulha e juntaram-na à colecção de borboletas. Foi tudo o que puderam fazer por ela.
- Agora estou assente num caule, tal como as flores – disse a borboleta. – Não é muito agradável. É tal e qual como o casamento: está-se firmemente agarrado.
A borboleta consolava-se com este pensamento.
- Pobre consolo o dela! – Murmuraram as flores dos vasos da sala.
- Não me posso fiar na opinião das flores dos vasos – pensou a borboleta. – Convivem demasiado com os seres humanos.
Hans Christian Andersen

Sem comentários:

Enviar um comentário

Obrigada pelo seu comentário!