segunda-feira, 12 de novembro de 2007

Escarlate

Eram redondos e vivos, muito vivos e curiosos os olhos daquele peixe que tinha apenas acabado de nascer e já queria viajar e já dançava nas ondas. De tal maneira ondulava e era vermelho que parecia uma labareda, muito embora as labaredas não brinquem no mar.
Escarlate lhe chamavam os pais, as algas, os limos, as rochas, a areia e as pedrinhas lisas que rolavam e se gastavam a rolar.
Escarlate viu ao longe os prédios cheios de janelas, papagaios de papel que esvoaçavam no espaço e crianças que jogavam e corriam. Olhou tudo aquilo e gostou. E acabou por se lançar na primeira vaga que o arrastou até à costa sem que tivesse tempo de voltar para trás. Agora as ondas vinham e recuavam e o peixe nadava apenas um metro e voltava a ser arremessado contra a praia. Era impossível atravessar as vagas e Escarlate sentia fugirem-lhe as forças enquanto os seus olhos redondos e curiosos iam ficando menores, cada vez menores, como se o cansaço os quisesse fechar.
De repente, a mão de um garoto grande e queimado pelo sol desceu sobre ele e Escarlate foi levantado do remoinho de espumas em dois segundos.
- Pobre peixe vermelho - disse o garoto - vou ver se te posso ajudar. E lançou Escarlate o mais longe que pôde. Mas ele voltou na crista de uma vaga, como se fosse um barquinho de cortiça.
Então o garoto mergulhou, nadou vigorosamente e foi empurrando Escarlate com a concha da mão. Zzz!- murmurou o peixe, o que em linguagem de gente quer dizer: Como se chama você? E o nadador, que não tinha tempo para conversas, respondeu que se chamava Zé, que é o nome mais curto que há.
Zé levou o peixe para lá das vagas que se quebravam, deixou-o em segurança e voltou para a praia, enquanto Escarlate, rodeado dos amigos grandes e pequenos, contava a sua aventura:
-Foi um jovem que me salvou! Foi um jovem que me salvou!
E o mar repetia:
- Um jovem salvou Escarlate! Um jovem salvou Escarlate!
Os peixes batiam as caudas, as algas acenavam, os limos bailavam e as pedrinhas rolavam mais depressa na areia. E até a cidade ao longe, toda enfeitada de sol, parecia ainda mais colorida e alegre.
- Os jovens agora também salvam os peixes - diziam todos - o mundo está melhorando, vamos ver em breve os homens de mãos dadas, não é verdade, Escarlate?
Escarlate dizia que sim e, de tão comovido que estava, piscava os olhos redondos e vivos e fazia piruetas de palhaço por entre as estrelas-do-mar.

Sidónio Muralha, Sete Cavalos na Berlinda, Plátano Editora

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