domingo, 4 de novembro de 2007

A separação

No entanto, à Luísa metera-se na cabeça que me havia de trazer consigo para Lisboa. Depois de o Manuel lhe ter dito que eu lhe pertencia e que gostava muito de mim, correu para a barraca onde a vi falar com os pais. Vi- a também chorar.
Nesse mesmo dia, por volta da hora do jantar, parou um automóvel à nossa porta. Os vizinhos chegaram-se à janela, porque não acontecia todos os dias pararem automóveis naquela rua.
Do carro saíram a Luísa e os pais. Entraram na nossa casa. A Tia Júlia estava a cozinhar. Quando viu aquela gente desconhecida e bem-posta, limpou as mãos ao avental e ofereceu-lhes cadeiras. Reparei que olhavam com estranheza a cozinha e a lareira escura a fumegar . O pai da Luísa declarou à Tia Júlia que desejava comprar-me, por a sua filha gostar de mim e por ter chorado, tanto me queria.
-A senhora faça o preço que entender- propôs.
A Tia Júlia olhou para o filho, depois para mim. Foi um momento bem triste, aquele. Porque, afinal, nós três pertencíamos uns aos outros e não havia o direito de nos quererem separar.
Mas a Tia Júlia era uma mulher pobre e as coisas estavam caras. O Manuel precisava de sapatos novos e de um casaco para o Inverno. Eu sabia isso por ter ouvido a Tia Júlia dizê-lo à vizinha. Nem sei como hei-de arranjar as coisas para o meu filho, suspirava. É bem natural que estivesse naquele momento a pensar nisso e a lembrar-se de que poderia comprar o que o Manuel precisava, se me vendesse. Deve ter sido por isso que ela disse:
- Olha, meu filho, também sou amiga do Faísca, mas a verdade é que o dinheiro fazia-nos agora muito jeito.
Nem gosto de recordar! Manuel olhou para a mãe com os olhos carregados de tristeza. Não respondeu nada, mas pôs-se a chorar e abraçou-se a mim com toda a força. Então meti o rabo entre as pernas e lambi-lhe as mãos. Eu já expliquei que nós, os cães, não deitamos lágrimas. Mas o meu coração estava repleto delas, podem crer. Encolhi-me todo, magoava o peso das lágrimas no coração e fui meter-me num canto da cozinha.
A Tia Júlia afagou a cara de Manuel e o pai da Luísa disse:
- Minha senhora, se ao rapaz custa tanto separar-se do cão, desistimos, é evidente.
Mas a Tia Júlia estremeceu ao pensar que o dinheiro, neste momento, lhe fazia jeito. Por isso indicou um preço. Não sei quanto pediu, nunca percebi nada de dinheiros e de pagamentos. O senhor tirou imediatamente uma nota da carteira e deu-a à Tia Júlia.
Tentei fugir, mas a porta estava fechada. Voltei, desesperado, para o canto da cozinha.
Não olhei para a Luísa, nem gostei dela naquele momento. Afinal era uma menina que queria tudo o que se podia comprar por dinheiro. O pai era rico e ela só precisava de pedir ou de chorar para que lhe dessem o que desejava. Não pensava no Manuel, que assim perdia o melhor companheiro e que não tinha culpa de o pai não ganhar o suficiente no Brasil. Luísa era assim porque nunca ninguém lhe tinha explicado como muitas outras pessoas vivem. Os pais faziam-lhe todos as vontades por ela ser a única filha. Também o Manuel era o único filho da Tia Júlia; contudo, ela não podia fazer-lhe muitas vontades, antes pelo contrário, até se via obrigada a lhe tirar o melhor amigo de que ele tanto gostava, para lhe poder comprar as roupas de Inverno.
Em seguida o pai da Luísa e a Tia Júlia empurraram-me para dentro do automóvel. Ainda fiz uma tentativa para resistir, mas não serviu de nada, pois apareceu um vizinho a ajudar a empurrar-me.
Dentro do carro, deitei as patas ao vidro da janela, ladrei, uivei. Mas tive de partir.
O carro ia-se afastando e ainda vi o Manuel chorar e a Tia Júlia a passar-lhe as mãos pela cabeça. Ainda ouvi gritar o meu amigo:
- Faísca! Meu Faísca!
Depois, o automóvel virou uma esquina e não vi mais nada.

Ilse Losa, Faísca Conta a Sua História, Ed. ASA

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